Nosso Segredo, de Gracê Passô

 
“Tem gente preta com a pele clara!”
 
 Além de ser uma das atrizes mais potentes de sua geração, a mineira Grace Passô destaca-se também enquanto dramaturga: em sua estréia como diretora de longas-metragens, ela adapta a sua premiada peça “Amores Surdos”, ampliando o escopo teatral para o espaço das ruas de Belo Horizonte, onde Gilson (Robert Frank) dirige como motorista de aplicativo. Na primeira seqüência, ele transporta um senhor que reflete sobre a quantidade de trabalho em sua vida: “antes, eu era um maracujá luzidio; hoje, sou um maracujá maduro”. Ao perguntar se o aparelho de som do veículo de Gilson anda está funcional, este passageiro (interpretado pelo cantor Matheus Aleluia) entrega-lhe um CD: “eu gravo coletâneas”. Está estabelecido o tom misterioso e fascinante do filme… 
 
Ainda tentando compreender o sentido das frases que o passageiro lhe destina antes de entrar em casa, Gilson ouve o CD e depara-se com alguns funcionários da coleta urbana de lixo, que encaram a câmera de maneira sorridente. A música aumenta e pensamos que Gilson é o protagonista do enredo, mas uma gama de personagens é logo apresentada, todos fazendo parte da mesma família. Qual será o segredo anunciado desde o título? 
 
Um dos grandes méritos de "Nosso Segredo" é a importância emocional concedida a situações circunstanciais, como a dificuldade de um casal em desligar uma caixa de som em altíssimo volume ou a conversa embriagada entre Guto (Flip) e uma mulher que ama. Porém, quando o garotinho Tutu (Efraim Santos) entra em cena, ele torna-se o elo em torno do qual os demais personagens transitarão… 
 
Crédito de Imagens: Vitrine Filmes / Wilssa Esser - Divulgação
O primeiro longa-metragem de Grace Passô conquistou os Kikitos de "Melhor Fotografia", "Melhor Direção de Arte" e "Melhor Filme" no Festival de Gramado deste ano.

 

Interpelando os seus parentes com frases assaz melancólicas (“o mundo é injusto?”, por exemplo), Tutu deixa de ir à escola por estar doente. Conversa em voz baixa com alguém que não vemos e passeia pelos cômodos da casa carregando frutas. Em determinada ocasião, deixa cair uma melancia. Já mencionamos que a diretora é extremamente sagaz ao fazer com que pequenas situações sejam agigantadas emocionalmente, não é? Eis, novamente, um destes casos! 
 
A câmera do filme acompanha os personagens de maneira furtiva, como se estivesse receosa de descobrir o que eles escondem, ainda que a curiosidade seja retroalimentada de maneira inteligente. Neste sentido, a direção fotográfica de Wilssa Esser merece elogios pelo modo como se conjuga à trilha musical de Amaro Freitas, fazendo com que ambos os elementos técnicos assumam-se como personagens acessórios, tanto quanto a direção de arte, que expande os ambientes – e, por extensão, os mistérios – da residência em que todos estão confinados. 
 
O roteiro escrito pela própria diretora é tão efetivo na construção de diálogos que quando descobrimos o segredo – intrigante, mas não tão impactante quanto se imaginava –, o filme perde um pouco do ritmo seguro que demonstra na primeira hora de projeção. Não obstante este decréscimo rítmico, é justamente depois que surge a hipopótama que deparamo-nos com o ritual de repetição de um áudio de WhatsApp, no qual uma lista de materiais de construção é erigida à função de comunhão familiar com alguém que não está mais presente… 
 
Por motivos óbvios, visto que a diretora é mais conhecida como atriz, o elenco afina-se de maneira homogênea, recitando as suas falas de maneira tão solene quanto espontânea. Outro ponto alto: quando Sidney (Juan Queiroz), cunhado de Tutu, explica-lhe a partir de qual momento passou a sentir-se como um rapaz bonito, depois de sofrer ‘bullying’ onde estudava. Nas entrelinhas, os efeitos dolorosos e traumatizantes do racismo enfrentado cotidianamente por aquelas pessoas, em situações anteriores, a ponto de, em reação, Tutu irritar-se com uma vizinha (Gláucia Vandeveld) e explicar que o paquiderme alojado no quarto de cima “só faz mal às pessoas brancas”. No desfecho poético, Gilson reassume algum protagonismo, deitando-se nu numa cama. Filme adulto e aberto a múltiplas interpretações psicanalíticas e também sociológicas. Uma estréia mais que promissora para uma artista completa! 
 
Trailer 

 
Ficha Técnica
 
Título Original e Ano: Nosso Segredo, 2026. Direção e Roteiro: Grace Passô. Elenco: Ju Colombo, Robert Frank, Flip, Jessica Gaspar, Marisa Revert, Efrain Canino Santos, Gláucia Vandeveld, Juan Queiroz. Mateus Aleluia. Gênero: Drama. Nacionalidade: Brasil. Fotografia: Wilssa Esser, DAFB. Direção de Arte: Lucas Osório. Edição: Gabriel Martins, Eva Randolph. Som: Gustavo Fioravante. Trilha Sonora Original: Amaro Freitas. Design de Som e Mixagem: Tiago BelloProdução: Ricardo Alves Jr. (Entre Filmes). Coprodutores: Rachel Daisy Ellis (Desvia Filmes), Julia Alves. Empresa produtora: EntreFilmes. Empresas coprodutoras: Globo Filmes, Desvia Filmes, Quarta-Feira Filmes, Foi Bonita a Festa e Grãos da Imagem. Produtora executiva: Julia Alves. Gerente de Produção: Luna Gomides. Distribuidora: Vitrine Filmes por meio da "Sessão Vitrine Petrobras". Duração: 01h47min.
 
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Escrito por Wesley Pereira de Castro

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