A Lenda de Beowulf

O público pode até não ter reagido muito bem à obsessão do cineasta Robert Zemeckis pela tecnologia de captura de movimentos na 1ª década dos anos 2OOO, mas é inegável que ele e suas experimentações entusiasmadas tiveram grande responsabilidade na evolução da técnica. A Lenda de Beowulf é um ótimo exemplo de filme que usou muito bem tal método ainda em seu estágio mais bruto. É convincente e efetivo, apesar de ainda soar ligeiramente como uma cutscene de videogame. Em comparação com O Expresso Polar, longa anterior do diretor que também utilizava a captura de movimentos, e acabou sendo um passeio muito mais familiar e agradável pelo Vale da Estranheza (termo usado para designar a sensação de rejeição que temos a reproduções artificiais da aparência humana).

Tanto pioneirismo, contudo, teve um preço: usar uma técnica ainda em seu estágio de desenvolvimento fez com que o elenco soasse meio perdido em suas atuações, interpretando os personagens num palco e vestindo um traje de captura de movimentos para os dados de suas performances serem processados por computadores e, posteriormente, convertidos em efeitos visuais. Muitos pixels, pouca alma. Dá pra sentir a hesitação no produto final, mas o resultado é bastante louvável como exercício de técnica. Nesse sentido, é importante exaltar a ousadia de criar um blockbuster de animação orçado em 150 milhões de dólares, feito inteiramente usando uma tecnologia ainda não estabelecida no mercado e tendo como base uma narrativa medieval clássica escrita centenas de anos antes da era cristã.

A natureza épica e fantástica do material original justifica o uso de modelos humanos artificiais para protagonizar o longa e realizar feitos impossíveis para artistas de carne e osso, ao mesmo tempo que dilui a obrigatoriedade da necessidade de hiper-realismo. Ainda que possam soar inverossímeis ao primeiro olhar, as imagens computadorizadas estilizadas e bastante violentas são complementadas por boas doses de exagero e teatralidade da história que compõem direitinho o conceito proposto.

Trailer


Ficha Técnica
Título original e ano: Beowulf, 2007. Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Neil Gaiman e Roger Avary baseado no poema ''épico Beowulf''. Elenco: Angelina Jolie, Ray Winstone, John Malkobvich, Brendan Gleeson, Paul Baker, Shay Duffin, Crispin Glover, Alison Lohman. Gênero: Ação, Aventura, Animação, Fantasia. Nacionalidade: Estados Unidos. Trilha Sonora Original: Alan Silvestri. Fotografia: Robert Presley. Edição: Jeremiah O'Driscoll. Design de produção: Doug Chiang. Supervisor de Efeitos Visuais Senior: Jerome Chen. Distribuição: Warner Bros Pictures Brasil. Duração: 01h55min.

Se a premissa tenta seguir uma cartilha de um conto clássico, infelizmente o mesmo também pode ser dito sobre as representações de arquétipos de gênero mostradas. O longa é permeado por estereótipos de dualidade do masculino versus feminino: heróis e donzelas, brutalidade e vulnerabilidade, etc. O protagonista, Beowulf, papel vivido por Ray Winstone, é a própria imagem do macho-alfa: forte, violento, audacioso, hipermasculinizado. Durante quase todo o 1º ato, é apresentado sempre seminu, tendo ressaltados seus atributos viris. Toda justificativa parece pífia para explicar a surreal e (talvez nem tão) involuntariamente homoerótica cena em que Beowulf resolve ficar completamente nu para enfrentar um inimigo "de igual pra igual, sem armaduras". Embora sua nudez frontal nunca seja explicitada, espadas no cenário são estrategicamente posicionadas para evidenciar sua masculinidade e não deixar dúvidas do papel falocêntrico da violência na construção do guerreiro heroico. Sendo assim, a validação de Beowulf deriva tanto de seus atos de bravura quanto de tal exibição descarada e gratuita de seu físico. A exposição do corpo também é característica marcante da súcubo vilanesca vivida por Angelina Jolie, totalmente nua em todo seu tempo de tela. Esta femme fatale, inclusive, é a única mulher da trama que foge aos clichês de fragilidade feminina. Porém, apenas para cair em outro chavão: o da sedutora cuja sexualidade macula a virtude do herói, levando-o à ruína. E ainda que suas ações movam a narrativa, a personagem sequer é digna de ter seu próprio nome (sendo conhecida apenas como "Mãe de Grendel", vilão de aparência ogresca que é assassinado por Beowulf no início da história).


O roteiro, coescrito por Neil Gaiman, acerta ao tentar preencher as entrelinhas e expandir as possibilidades do poema no qual se baseia, além de construir mais camadas de personalidade para o protagonista, retratado aqui como um homem imperfeito e falho (beirando o anti-heroísmo), assim como as ameaçadoras criaturas antagonistas do filme, que, por sua vez, ganham motivações humanas e são mostradas de forma muito menos maniqueístas do que o convencional.

É impressionantemente frustrante como, mesmo com tanta profundidade em seu âmago e tantas qualidades técnicas visionárias, A Lenda de Beowulf acaba soando vazio, engessado e, quem diria, artificial demais. Muitos pixels, pouca alma.

O FILME ESTÁ DISPONÍVEL NA APPLE TV E NO GOOGLE PLAY

Escrito por Peterson Costa

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1 comments:

@gupdm disse...

caramba, eu lembro de assistir esse filme no cinema e a cena que mais me marcou foi essa da angelina. lembro de ter mesmo estranhado demais a forma como escolheram usar a tecnologia.
ótimo texto, peterson! ;)

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