Segundo Tempo, Rubens Rewald

 
“Pergunta para ele: ‘tu foste nazista?’”
 
Em colaboração com outros cineastas [Rossana Foglia em “Corpo” (2007) e Jean-Claude Bernardet em “#eagoraoque” (2020), para ficar em dois bons exemplos], o paulistano Rubens Rewald demonstra afeição pelas narrativas que bifurcam-se através das memórias e interpretações. Em âmbito dramatúrgico, ele prefere que o espectador preencha as lacunas das situações apresentadas enredisticamente, cujos pontos de partida geralmente são políticos. Trabalhando sozinho na direção, ele realiza o seu trabalho mais acessível, também permeado por algumas soluções simplistas… 

Ainda que “Segundo Tempo” (2022) seja convencional na maneira como expõe os seus personagens, torna-se progressivamente interessante, à medida que o casal de irmãos interpretado por Kauê Tellolli e Priscila Steinman começa a descobrir mais sobre a própria genealogia familiar, depois que viajam para a Alemanha. Ele chama-se Carl, mas seus amigos o conhecem como “Alemão”. É obcecado por futebol e consegue dinheiro realizando programas sexuais com homens; ela chama-se Ana, trabalha como bibliotecária e parece continuamente deprimida. Aproximar-se-ão forçosamente depois da morte do pai deles, Helmut, vivido por Michael Hanemann

Sobremaneira irresponsável, Carl esquece que seu pai tinha um exame agendado e ignora os seus clamores, no afã por desempatar uma partida em que está jogando. Helmut passa mal repentinamente e seu filho fica preso num congestionamento. Tudo isso faz com que a sua relação com Ana seja demarcada por muitas reclamações, visto que ela é bastante ocupada, além de não conseguir sequer assumir um relacionamento amoroso com um colega de trabalho. Ela gosta bastante do pai, o que aumenta os ciúmes de Carl em relação a ela. 

                                                                                                                                             Créditos: Divulgação
Rodado no Brasil e na Alemanha, o filme  de Rubens Rewald chega as salas de cinema em São Paulo, Brasilia, Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre, Recife e Aracaju.


Ao encontrar alguns pertences antigos no guarda-roupa do pai, Carl compra algumas passagens para a Alemanha, de maneira impulsiva, e carrega a irmã consigo, a despeito do desânimo dela. Em Frankfurt, eles interagem com outras pessoas e visitam uma cidade interiorana, na qual o pai viveu na juventude. É quando descobrem o que aconteceu com a sua família durante o período nazista, e passam a refletir sobre o automatismo com que eles encaram as suas vidas: enquanto Carl procura por clientes locais, a fim de conseguir algum dinheiro, Ana passeia pelas cidades e interage com o simpático dono de um restaurante (Joachen Stern), com quem aprende bastante sobre as dolorosas lições do passado. 

Sem sobressaltos ou revelações chocantes, o roteiro deste filme concentra-se na aproximação gradual dos dois irmãos, que são bem interpretados, ainda que os diálogos incomodem um pouco por causa das obviedades e incongruências, sobretudo no que diz respeito aos comportamentos desleixados de Carl. Afinal, ele viaja para a Alemanha sem sequer falar inglês e perambula pelos lugares como se fosse algo não dificultoso. Chega mesmo a folhear vários livros em alemão, numa biblioteca, com o intuito de pesquisar um enigma envolvendo o desenho de um pentagrama, encontrado entre os objetos de seu pai, numa pista transversal, envolvendo as habilidades matemáticas do mesmo. 

Trailer

Ficha Técnica
  • Título original e ano: Segundo Tempo, 2022. Direção e Roteiro: Rubens Rewald. Elenco: Priscila Steinman, Kaue Telloli, Michael Hanemann, Laura Landauer e Jochen Stern. Gênero: Drama. Nacionalidade: Brasil. Fotografia: Humberto Bassanelli e Sergio Roizenblit. Som: Eduardo Santos Mendes. Montagem: Willem Dias. Direção de Arte: Ana Rita Bueno. Música: Claudio Faria. Produção: Miração Filmes & Confeitaria de Cinema. Produção Executiva: Marina Puech Leão e Julia Walker. Distribuidora: Pandora Filmes. Duração: 107 minutos
No elenco, um destaque positivo vai para a participação da simpática Laura Landauer, que interpreta a filha do dono do restaurante, que não sabia que ele participara da Juventude Hitlerista, até que Ana ouse lhe perguntar isso. Em sua disponibilidade imediata, ela leva a nova amiga brasileira até mesmo para um cemitério judaico. Tal qual acontece com os demais personagens, é como se os problemas cotidianos ou as rotinas empregatícias não importassem, e fosse possível caminhar despreocupadamente a qualquer momento do dia. No que diz respeito às intenções emocionais do roteiro, pedir para jogar futebol ao lado de alguns garotos árabes é algo corriqueiro. Se o Atestado Médico – que permitiu que Ana fosse afastada de suas atividades profissionais por algum tempo – ainda está válido, entretanto...

Por mais irritante que seja Carl e a despeito de algumas eventuais incoesões tramáticas, a despretensão com que o diretor conduz as situações do roteiro, escrito por ele próprio, faz com que “Segundo Tempo” proporcione válidas reflexões aos espectadores, no que tange ao questionamento de nossas identidades comunitárias. Não é tão propositivo quanto as obras anteriores do cineasta, mas entretém e nos estimula a conversamos com quem nos rodeia.

HOJE NOS CINEMAS

Escrito por Wesley Pereira de Castro

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