“Não sei o que tu fazes à noite, em tua vida. Tu podes me enganar, mas não ao público da peça”…
Se, nos longas-metragens anteriores da dupla Márcio Reolon & Felipe Matzembacher [“Beira-Mar” (2015) e “Tinta Bruta” (2018)], as condições privilegiadas de classe dos protagonistas interferem negativamente na pujança homoerótica dos enredos, em “Ato Noturno” (2025), acontece o movimento inverso: o desejo incontido dos personagens periga interditar os seus anseios pessoais e/ou delírios de grandeza. E é muito interessante como o personagem Matias (Gabriel Faryas), um ator, funciona como vórtice amoral para as reflexões propostas pelo roteiro escrito pelos próprios diretores, muito oportuno num ano eleitoral e perante o agendamento midiático pseudovoyeurista atrelado a um conhecido ‘reality show’ televisivo…
Na primeira seqüência do filme, Matias e seus companheiros de teatro ensaiam uma peça que traz em seu âmago um teor indisfarçado de agressividade, determinante para a cena final, em que quem fica de pé, após um difícil exercício de equilíbrio, torna-se o protagonista da peça, ao recitar um intenso monólogo. A fim de incitar um tipo de competitividade interna que dinamiza as apresentações, no sentido de que a peça não ficaria repetitiva, noite após noite, a diretora do espetáculo não determina que a pessoa a cair, nesta cena final, seja sempre a mesma: Matias e seu amigo Fábio (Henrique Barreira) disputarão persistentemente o privilégio de recitar o monólogo em questão…
Crédito de Imagens: Avante Filmes e Vulcana Cinema - Vitrine Filmes, Divulgação
A produção fez parte de Laboratórios e Mercados no 18º Berlinale Co-Production Market 2021; no Ventana Sur 2020 - Proyecta e também contou com pre estreia no 75º Berlin International Film Festival
Enquanto debatiam a dispersão manifesta pelos atores, durante os ensaios, os colegas de Matias notam que várias mensagens chegam em seu telefone celular, o que é desnecessariamente publicizado por Fábio, num rompante de inveja: trata-se de um contato típico dos aplicativos sexuais (“Discreto alguma coisa”), com quem Matias encontrar-se-á logo em seguida. Inicialmente apreensivo, Matias logo se sentirá à vontade nos braços de Rafael (Cirillo Luna), por mais estranhas que sejam as condições do encontro, numa residência luxuosa, cujo coito periga ser flagrado por outrem a qualquer momento.
É quando se descobre que Rafael é um político em ascensão, um ambicioso vereador que tenciona se tornar prefeito da cidade de Porto Alegre e, como tal, deve portar-se publicamente como alguém ilibado, não sendo vistos com bons olhos os seus flertes sexuais com um homem comportamentalmente afetado. Ao menos, é assim que insinua o chefe de segurança Camilo (Ivo Müller), que trata Matias com a hostilidade dúbia de quem é homofóbico por reprimir os seus desejos íntimos. Eis o estabelecimento das tensões que serão desenvolvidas em torno do protagonista, que também disputará o papel principal numa telessérie com Fábio…
Homenageando explicitamente o cinema de Brian De Palma e suas atualizações suspensivas neo-hitchcockianas, os diretores aproveitam de maneira expressiva os ambientes alargados e sujeitos a mais de um olhar vigilante, nos quais transitam os personagens. Neste sentido, são dignos de elogios a direção de arte cuidadosa do ambiente teatral e os enquadramentos estilizados em que situações opostas acontecem nas extremidades da imagem – vide o instante em que Rafael e seu segurança interrompem um momento de descanso de Fábio e Matias num parque ou o momento em que Rafael e Matias insistem em fazer sexo, na rua, enquanto uma família descarrega algumas compras num automóvel ao lado. O espectador é convencido a ser duplamente escopofílico!
Trailer
Ficha Técnica
Título Original e ano: Ato Noturno, 2025. Título Internacional: Night Stage. Direção e Roteiro: Filipe Matzembacher e Marcio Reolon. Elenco: Gabriel Faryas, Cirillo Luna, Henrique Barreira, Ivo Müller, Larissa Sanguiné, Kaya Rodrigues, Gabriela Greco, Antonio Czamanski. Gênero: Drama, Thriller. Nacionalidade: Brasil. Direção de Fotografia: Luciana Baseggio. Montagem: Germano de Oliveira, EDT. Direção de Arte: Manuela Falcão. Desenho de Som e Mixagem: Tiafo Bello. Música Original: Thiago Pethit, Arthur Decloedt e Charles Tixier. Produção: Jessica Luz, Paola Wink, Filipe Matzembacher e Marcio Reolon. Produção Executiva: Paola Wink e Jessica Luz. Formato: DCP, 2K, Scope, Cor. Financiamento: FSA. Empresa produtora: Avante Filmes. Empresas co-produtoras: Vulcana Cinema. Agente de Vendas Internacional: m-Appeal. Distribuição Brasil: Vitrine Filmes. Duração: 117 min.
Musicado de maneira pungente por Thiago Pethit – com quem os diretores já colaboraram em videoclipes –, além de mais dois profissionais, “Ato Noturno” revela-se mui exitoso na aplicação das convenções de gênero, manipulando as expectativas e receios do espectador, à medida que ameaças e chantagens convertem-se em assassinatos propriamente ditos. E as cenas de “peça dentro do filme” e “série dentro do filme” metonimizam as relações conflituosas vivificadas pelos personagens, o que corrobora de maneira dúbia as exigências stalislavskianas de uma diretora teatral (Larissa Sanguiné) e da selecionadora de elenco (Kaya Rodrigues) que contrata Matias para protagonizar a série, após alguns contragostos anteriores: afinal, nesta perspectiva, Rafael seria tão “ator” quanto Matias, pois precisa fingir continuamente alguém que não é. Ou melhor, eliminar aspectos de quem ele é para enfatizar quem ele gostaria de ser, a fim de alcançar os seus objetivos eleitorais.
Bem interpretado, bem dirigido e bem fotografado, este filme se demonstra como uma benfazeja progressão do estilo dos realizadores, cujo erotismo é integrado à narrativa enquanto componente reivindicativo para a identidade dos personagens – sendo requeridas, à guisa de ilustração, várias seqüências de ‘cruising’ (“pegação”), ou seja, práticas sexuais anônimas e casuais numa praça, em que vários homossexuais se agarram. Indeciso entre a paixão que sente por Rafael e o seu desejo de tornar-se um astro consagrado e nacionalmente reconhecido, Matias age de maneira impensada e estouvada. O filme não o julga, entretanto: ao invés disso, ele parece nos direcionar uma reprimenda acerca das ocasiões em que julgamos negativamente os comportamentos íntimos de alguém, a depender da função pública que esta pessoa ocupa. Não seríamos nós financiadores de preconceitos sociais concernentes à exigência tácita de “higienização sexual” para políticos e artistas? O filme é também sobre isso: que tipo de conteúdo sentimo-nos à vontade para publicar em nossas redes sociais? Será que isso não depõe contra nós, profissionalmente? Há como separar o que o indivíduo faz em seu ambiente de trabalho daquilo que é posto em prática após o horário de expediente? O título do filme é mais que assertivo, portanto!
EM EXIBIÇÃO NOS CINEMAS
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