Nem Tudo É Paz e Amor, de Betão Aguiar


Nos anos 70, o mundo estava em ebulição. Em plena Guerra Fria, o mundo capitalista, liderado pelos Estados Unidos, contra o mundo socialista, comandado pela União Soviética; guerras como a do Vietnã dizimando milhares de jovens soldados e civis; ditaduras sanguinárias cerceando as liberdades civis e torturando e matando opositores, como o regime militar do Brasil. Neste universo comandado pela morte, surgiu o movimento da contracultura, a geração hippie, que pregava e punha em prática a liberdade total, o uso de drogas para expandir a mente, a revolução sexual e a vida em comunidade.

Era o desejo da "Era de Aquarius", em que a morte abandonaria os noticiários e a realidade seria invadida pelo amor e pela paz, entre cores psicodélicas e desbundes geniais. Independente de localizações geográficas, em todo o planeta calcinado pelo sofrimento, a juventude embarcou nessa proposta. Um destes ícones da mudança foi Paulinho Boca de Cantor, dos Novos Baianos, uma importante banda da contracultura, que ainda reunia entre seus integrantes Baby do Brasil, Pepeu Gomes, Moraes Moreira, e que foi responsável por clássicos da música popular brasileira, como "Preta, Pretinha" e "O samba da minha terra".

Paulinho Boca de Cantor teve entre seus filhos o diretor de cinema Betão Aguiar. O Betão, junto com sua amiga de adolescência e produtora cinematográfica, Jasmin Pinho, infelizmente falecida de câncer em 2020, teve a ideia de retratar a vida daqueles que fazem parte dessa geração do paz e amor, de criar um documentário dando voz a estas crianças que já nasceram livres, imersas em uma existência que era uma rebelião constante contra o status quo da realidade brasileira.

Mesmo com a morte prematura da amiga, o diretor prosseguiu com o projeto de retratar e eternizar em película estas vozes dissonantes, personagens estes que, como crianças e adolescentes na época, também queriam pertencer a uma maioria silenciosa. Dessa captura de vozes para a eternidade das telas de cinema saiu o documentário Nem Tudo É Paz e Amor, que estreia esta semana em várias cidades do país com distribuição da Pandora Filmes.

                 Crédito de Imagens: Pandora Filmes, Divulgação
O filme que conta com as participações de Anelis Assumpção, Beto Lee, Paulinho Boca de Cantor, Betão Aguiar, Nara Gil, Sarah Sheeva e Moreno Veloso estreou na Mostra "Panorama Brasil" do 18º In-Edit Brasil em junho

Com total liberdade de fala, os primogênitos destes revolucionários hippies rememoram o que era viver nestas comunidades, onde ter uma mesa de jantar era uma caretice total e a liberdade de ser o que se queria ser era a lei máxima da família, tudo emoldurado por casas em paradisíacas praias baianas, ao som de muita música dos anos 70. Mas essa cultura ao avesso da praticada pelo restante da população cobrava seu preço, e estas crianças às vezes se assustavam em ver como eram diferentes dos amigos de escola, de que usar maconha na varanda não era o comum em todos os lares e de que mesas de jantares e comer nelas era a rotina diária dos coleguinhas.

Esse choque de realidade é exposto em relatos saborosos dos filhos dessa geração fabulosa hippie que mudou os rumos das artes. Os traumas infantis da época, suavizados pelos cinquenta anos que já se passaram, e adoçados pelo amor incondicional dos pais famosos, recebem a luz do dia. Nem tudo era paz e amor, existia o sofrimento de se ser criança e não se enquadrar no “normal” da época.

Trailer



Ficha Técnica

Título original e ano: Nem Tudo É Paz e Amor, 2025. Direção: Betão Aguiar. Fotografia: Fabio Burtin e Bruno Graziano. Participações: Paulinho Boca de Cantor, Helena Ignez, Sarah Sheeva, Anelis Assumpção, Beto Lee, Nara Gil e Moreno Veloso. Gênero: Documentário. Nacionalidade: Brasil. Distribuidora: Pandora Filmes. Duração: 86 min.

Esse conflito de gerações é o tema do documentário. Aqui os pais famosos, como Baby do Brasil, Itamar Assumpção, Rita Lee, Gilberto Gil, Caetano Veloso, etc, não são os personagens principais, mesmo que alguns como Helena Ignez ainda falem. Ouvimos principalmente as crianças daquela época, hoje cinquentões, que dividem suas memórias afetivas, suas angústias e que fazem o espectador refletir sobre suas famílias e suas lembranças infantis. Entre eles, Sarah Sheeva, Anelis Assumpção, Beto Lee, Nara Gil e Moreno Veloso.

O diretor Betão Aguiar, também responsável pelo documentário "Samba de Santo – Resistência Afro-Baiana" (2020), cria um delicioso relato autobiográfico de sua infância e adolescência, optando pelo recorte geracional em vez de um relato íntimo. Essa multiplicidade de vozes, contadas paralelamente, e intermediadas por fotos, vídeos e filmes da época, é um poderoso lembrete de como as famílias são as dores e delícias de cada um, de como o ser atual é resultado desse passado, dessa história. Paz, amor, sofrimento e conflito, isso compõe cada um de nós, até os filhos da geração da contracultura. Obviamente que suavizado pelas canções maravilhosas compostas naquela época; a trilha sonora deste documentário é linda. 

Nota: 7/10

HOJE NOS CINEMAS

Escrito por Marcelino Nobrega

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