Bom Garoto, de Jan Komasa l Assista no Filmelier+

  
“Aqui em teu contrato ‘online’, diz que tu aceitas realizar tarefas fora do padrão, é isso mesmo?”
 
Em seus trabalhos anteriores de repercussão internacional – o drama “Corpus Christi” (2019), indicado ao Oscar; e “Rede de Ódio” (2020), produzido pela Netflix –, o cineasta polonês Jan Komasa lida com um tipo recorrente de misantropia neogeracional, progressivamente contornada pelo moralismo dos roteiros, o que fez com que o realizador se demonstrasse merecedor da pecha de polemista, em vez de afirmar-se como alguém efetivamente talentoso. Neste novo trabalho, radicado no Reino Unido, ele resolve de maneira afirmativa os problemas de filmes anteriores, permitindo que as perguntas e questionamentos perdurem, ao invés das tentativas de explicação para aquilo que é inevitavelmente subjetivo, mesmo quando sociologicamente fundamentado…

Logo no início de “Bom Garoto” (2025), conhecemos o cotidiano desregrado de Tommy (Anson Boon), que se droga compulsivamente junto a alguns amigos e briga sem motivo com quem quer que apareça à sua frente. Embriagado, ele é raptado misteriosamente por alguém, e desperta acorrentado pelo pescoço, num porão. Ao mesmo tempo, conhecemos o misterioso patriarca Chris (Stephen Graham), que contrata a imigrante da macedônia ilegal Rina (Monika Frajczyk) para algo que não é devidamente esclarecido…

Apesar de assustada, Rina consente em trabalhar como empregada doméstica na residência de Chris e sua família, onde depara-se com Tommy acorrentado, mas não pode reagir, visto que foi chantageada por seu patrão. Qual a intenção deste homem em relação ao rapaz? É o que tentaremos compreender daí por diante… 
 
Crédito de Imagens: Photo de Lukasz Bak - © Magnolia Pictures  
 
O longa-metragem estreou no 

Combinando elementos dramatúrgicos contidos em filmes como “O Colecionador” (1965, de William Wyler) e “Laranja Mecânica” (1971, de Stanley Kubrick), descobrimos que, em “Bom Garoto”, Chris seqüestrou Tommy com o intuito de regenerá-lo moralmente, fazendo com que ele assista a algumas más ações que ele transmitia ao vivo numa de suas redes sociais, como a agressão súbita a um adolescente que ele encontra numa esquina, de quem quebra o telefone celular. Pouco a pouco, Tommy perceberá que agia como violência desnecessária em relação às pessoas. Seria a sua conversão legítima?

Chris vive com a sua esposa Kathryn (Andrea Riseborough) e seu filho Jonathan (Kit Rakusen), e trata ambos de maneira excessivamente melindrosa, apelidando-os como “Raio de Sol”, por exemplo. Kathryn percorre os ambientes com o olhar entorpecido, visivelmente deprimida, mas passa a interagir com Tommy, sugerindo que ele leia alguns livros, “recomendados para a sua faixa etária”, segundo ela. É assim que o jovem rebelde consentirá em ler clássicos como: “O Homem Ilustrado”, de Ray Bradbury; “O Sol é Para Todos”, de Harper Lee; e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley. Cada um destes enredos tem a ver com algo relacionado à vida pregressa de Tommy, que passa a refletir sobre as suas atitudes de outrora…

As relações entre estes personagens são atravessadas por tensões que eventualmente converter-se-ão em simulacros de afeto, não obstante Tommy reclamar que permanece “acorrentado como um cachorro” pela casa. E ele percebe que seus atos, bem como as expectativas de melhoria e adesão familiar, são comparados aos de outra pessoa, de quem passa a ocupar o quarto. Seria um irmão consangüíneo de Jonathan? Outro rapaz que fôra seqüestrado? O roteiro de Bartek Bartosik e Naqqash Khalid é assertivo ao não responder a estas perguntas, cabendo ao espectador a tarefa de complementar as lacunas emocionais e factuais que balizam o cotidiano daquela família. Numa seqüência extraordinária, Jonathan convida Tommy para a sala de estar, onde resolvem assistir ao filme favorito deste ente desaparecido, constantemente mencionado. Trata-se do drama mui realista “Kes” (1969, de Ken Loach), que incomoda Tommy, por ele já estar deprimido o suficiente. O modo como o filme lida com as referências cinematográficas e literárias é magistral!

 
Trailer 
 

Ficha Técnica
 
Título Original e Ano: Heel, 2026. Direção: Jan Komasa. Roteiro: Bartek Bartosik e Naqqash Khalid. Elenco: Stephen Graham, Andrea Riseborough, Anson Boon, Kit Rakusen, Monika Frajczyk, Savannah Steyn, Mila Jankowska, Callum Booth-Ford, Noah Valentine. Gênero: Drama, Thriller Psicológico, B-Horror. Nacionalidade: Polônia e Reino Unido. Trilha Sonora Original: Abel Korzeniowski. Fotografia: Michal Dymek. Edição: Agnieszka Glinska. Design de Produção: Fletcher Jarvis. Direção de Arte: Rebecca Barker-McLean e Marianna Mikolajczak-Lisiecka. Figurino: Julian Day. Empresas Produtoras: Recorded Picture Company e Skopia Film. Disponível no Filmelier +
 
No quartel final desta obra, cujos cento e dez minutos de duração são ritmicamente entretenedores, um novo ciclo é proposto a Jonathan, reconfigurando de maneira perturbadora – em sua aparente adesão voluntária à reconciliação – aquilo que, até então, parecia um suspense com cenas de tortura. A bela trilha musical de Abel Korzeniowski permite que nos identifiquemos gradualmente com Tommy, quando ele passa a questionar a sua malevolência irrefreada, possivelmente derivada da indiferença proveniente de seus parentes, visto que ele é uma pessoa aquisitivamente favorecida, conforme perceberemos em determinado momento. Sem elaborar teses comportamentais ou incorrer na previsibilidade melodramática, Jan Komasa concebe um filme que nos deixa pensativos muito tempo após a sessão. Ótima atualização dos títulos fílmicos citados como assemelhados a esta trama. Os atores desempenham os seus papéis com galhardia! 
 

Escrito por Wesley Pereira de Castro

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