Minha Melhor Amiga, de Susana Garcia


Para celebrar a amizade feminina e a força das mulheres, setembro começa muito bem com a estreia da comédia Minha Melhor Amiga. Distribuído pela Paris Filmes e protagonizado por Mônica Martelli (Minha Vida em Marte, 2018) e Ingrid Guimarães (Minha Irmã e Eu, 2023), o longa encontra na relação entre duas amigas de longa data um caminho sensível para abordar questões que atravessam a vida de muitas mulheres, especialmente os desejos, as inseguranças e as transformações que acompanham o envelhecimento. Dirigido por Susana Garcia (Minha Mãe é uma Peça 3, 2019), o filme tem a leveza de uma produção feita para ser compartilhada, seja entre amigas, irmãs ou naquele encontro de fim de tarde entre mãe e filha. Ainda assim, surpreende ao se aproximar um pouco mais do drama do que sua divulgação como comédia talvez faça imaginar. A escolha, porém, não compromete o equilíbrio da narrativa. Pelo contrário: permite que o humor conviva com momentos de maior vulnerabilidade e afeto.
 
Há também algo de muito pessoal na história. O longa presta uma carinhosa homenagem à amizade que Martelli e Guimarães cultivam fora das telas, uma relação que atravessou os anos em meio às transformações trazidas pela fama, pela família e pelos relacionamentos. Essa proximidade com a vida real aparece ainda em outro detalhe afetuoso: inspiradas em suas próprias experiências com a maternidade, as atrizes emprestaram às personagens os nomes de suas filhas. 
 
Na trama, Julia (Mônica Martelli) e Clara (Ingrid Guimarães) são amigas e mães para todas as horas. Quando suas filhas se mudam para Portugal para estudar, as duas decidem embarcar juntas para a Europa e visitá-las. A viagem, no entanto, acaba revelando que a distância das meninas é apenas uma das mudanças com as quais precisam aprender a lidar. Diante de uma espécie de síndrome do ninho vazio, cada uma à sua maneira começa a confrontar questões que ultrapassam a maternidade e dizem respeito à própria identidade. Julia é mãe solo e uma jornalista experiente que acaba de enfrentar um episódio de etarismo no trabalho, situação que a obriga a encarar as inseguranças de uma fase da vida em que sua experiência parece, injustamente, perder espaço para sua idade. Clara, por sua vez, atravessa uma crise no casamento ao mesmo tempo em que questiona a própria trajetória profissional. Corretora de imóveis, ela parece ter passado tantos anos conciliando suas escolhas com as necessidades da família que talvez nunca tenha tido a oportunidade de descobrir, verdadeiramente, o que desejava para si. O filme não se aprofunda completamente nas razões que levaram Clara a seguir esse caminho, mas deixa uma sugestão delicada: em algum momento, seus próprios projetos podem ter sido colocados em segundo plano para que ela pudesse se dedicar à filha. É justamente nesse espaço entre aquilo que essas mulheres escolheram, aquilo de que abriram mão e o que ainda desejam viver que Minha Melhor Amiga encontra algumas de suas questões mais interessantes.
 
                                                    Crédito de Imagens: Paris Entretenimento, Paris Filmes - Divulgação
 
A narrativa incorpora experiências e aventuras inspiradas nas próprias vivências de Mônica Martelli e Ingrid Guimarães, incluindo situações e viagens que as duas realmente compartilharam ao longo dos anos 
 
 
Um dos aspectos mais interessantes da produção está na naturalidade com que esta abre espaço para temas como o desejo e o prazer sexual feminino, especialmente quando se trata de mulheres mais maduras. Dentro e fora das telas, elas ainda enfrentam o etarismo e o apagamento de histórias capazes de representá-las para além da maternidade, do casamento ou dos papéis que tradicionalmente lhes são reservados. Nesse sentido, o longa de Garcia, embora assuma sem constrangimento sua vocação para o entretenimento, encontra espaço para discutir questões nas quais muitas espectadoras poderão se reconhecer enquanto se divertem com as aventuras de suas protagonistas.
 
Entre elas está um assunto que ainda costuma ser tratado como tabu: a sexualidade da mulher depois dos cinquenta anos. Julia mantém uma vida sexual ativa, enquanto Clara tenta recuperar o desejo e a intimidade dentro de um casamento desgastado pelo tempo. É por meio desta última que o filme aborda também uma forma particularmente dolorosa de solidão: aquela experimentada mesmo quando se está ao lado de alguém. Ao longo dos anos, Clara parece ter se apagado pouco a pouco enquanto assumia grande parte das responsabilidades familiares, chegando a cuidar também da sogra. Agora, começa a se perguntar se ainda há tempo para recomeçar e, talvez pela primeira vez em muito tempo, descobrir o que deseja para si. O divórcio surge como uma possibilidade, mas vem acompanhado de outro temor bastante íntimo: o medo de deixar uma relação de tantos anos apenas para, mais adiante, envelhecer sozinha. Julia vive um conflito diferente. Sua liberdade sexual não significa necessariamente disponibilidade emocional. Apesar dos encontros e relacionamentos casuais, ela encontra dificuldade para se permitir uma verdadeira intimidade romântica. Há uma espécie de mecanismo de proteção construído a partir das experiências vividas com o pai de sua filha, como se manter determinada distância fosse uma maneira de evitar novamente a vulnerabilidade e, consequentemente, a possibilidade de se machucar.
 
É carregando essas questões que as duas partem para a Europa e se envolvem em uma sucessão de aventuras, encontros e confusões. Há algo de um coming of age tardio nessa jornada: duas mulheres maduras percebendo que crescer, mudar de direção e descobrir novos desejos não são experiências reservadas à juventude. Entre europeus bastante atraentes, reencontros com as filhas, que também atravessam seus próprios conflitos, e situações inesperadas, Julia e Clara acabam sendo obrigadas a olhar não apenas uma para a outra, mas para si mesmas. Talvez por isso uma das cenas mais bonitas do longa seja também uma das mais simples. Dentro de um carro, as duas cantam juntas “Tempo Perdido”, da Legião Urbana. É um momento pequeno, mas catártico, que parece condensar muito do que o filme deseja dizer. Afinal, para mulheres que começam a se perguntar sobre o tempo que passou e sobre tudo aquilo que ainda desejam viver, poucos versos poderiam dialogar tão bem com essa jornada quanto a lembrança de que ainda existe tempo pela frente.
 
Trailer
 

Ficha Técnica 
Título Original e Ano: Minha Melhor Amiga, 2026. Direção: Susana Garcia. Roteiro: Patrícia Leme, Luisa Capri, Tati Bernardi, Ingrid Guimarães, Mônica Martelli e Susana Garcia. Roteiro Final: Andréa Batitucci, Ingrid Guimarães, Mônica Martelli e Susana Garcia. Elenco: Mônica Martelli, Ingrid Guimarães,Giulia Benite, Gabi Amaral, Gustavo Machado, Albano Jerónimo, Alejandro Albarracín, Ricardo Pereira, Michel Melamed e Thaila Ayala. Gênero: Comédia, Drama. Nacionalidade: Brasil. Direção de Fotografia: Rodrigo Monte, ABC. Direção de Arte: Monica Costa. Figurino: Verônica Julian. Caracterização: Lu Moraes. Som Direto: Ricardo Sequeira, Alvaro Correia e Douglas Vianna. Supervisão Musical e Música Original: Zé Ricardo. Edição de Som: Bernado Uzeda e Tomás Alem. Mixagem: Rodrigo Noronha e Gustavo Loureiro. Montagem: Leonardo Gouvea e Mariana Flor, edt. Direção de Produção: Marcela Flores e Martim Lorena. Elenco por: Marcela Altberg. Produção Executiva: Laura Boorhem. Line Producer: Samantha Queiroz, UPEX e Bruno Martins. Produzido por: Marcio Fraccaroli, Andre Fraccaroli, Veronica Stumpf, Ingrid Guimarães, Mônica Martelli e Susana Garcia. Apoio: FSA/BRDE/Ancine (+bandeira nacional), PIC Portugal, Visit Portugal, Lisboa Câmara Municipal, Lisboa Cultura, Lisboa Film Commission e Hotel Tivoli. Patrocínio: Uber. Produção: Paris Entretenimento. Distribuição: Paris Filmes. Duração: 02h05min.
Ainda que Minha Melhor Amiga tenha seus méritos ao ampliar o espaço dedicado a diferentes experiências femininas, algumas escolhas poderiam ter ido além, especialmente no que diz respeito à presença de personagens racializadas e diversas. A representatividade aparece de maneira mais evidente por meio de Isadora (Gabi Amaral), filha de Clara, que compartilha com a mãe estar descobrindo sua bissexualidade enquanto também tenta compreender quais caminhos deseja seguir para a própria vida. É interessante perceber como mãe e filha, embora em momentos completamente distintos, acabam atravessando processos semelhantes de descoberta, ambas tentando entender quem são e o que querem para o futuro.
 
Giulia Benite (Morando com o Crush, Hsu Chien Hsin, 2024) também integra o elenco como Manu, filha de Julia. Mesmo com pouco tempo em cena, a atriz reafirma o talento que vem demonstrando ao longo de sua ainda jovem carreira e consegue imprimir naturalidade à personagem, funcionando bem dentro da dinâmica familiar proposta pelo longa. Gabi Amaral, que fez sua estreia nas telonas em Quinze Dias (Daniel Lieff, 2026), apresenta um trabalho promissor e demonstra naturalidade em cena. Já Mônica Martelli, Ingrid Guimarães e Susana Garcia são nomes que se cruzam com frequência no cinema nacional. Ao longo dos anos, diferentes combinações desse trio estiveram por trás de produções como Minha Vida em Marte e Minha Irmã e Eu, títulos que encontraram grande receptividade junto ao público. Essa familiaridade artística também se reflete em aqui, que reúne novamente as atrizes sob a direção de Garcia.
 
A produção se revela uma boa pedida justamente por transformar a viagem de duas amigas em uma jornada sobre os conflitos íntimos e cotidianos da mulher contemporânea. Assinado por Ingrid Guimarães, Andrea Batitucci, Mônica Martelli, Luísa Capri, Tati Bernardi e Patricia Leme, o roteiro mantém Julia e Clara no centro da narrativa e permite que suas inquietações existam para além das relações amorosas. E talvez esteja aí um de seus maiores acertos: o romance não é apresentado como destino ou solução para essas mulheres. Os homens que cruzam seus caminhos fazem parte de suas experiências, acrescentam descobertas, prazer, dúvidas e possibilidades, mas não ocupam o centro de suas histórias. Esse espaço pertence a Julia e Clara, à amizade entre elas, às relações com suas filhas e, sobretudo, à redescoberta de si mesmas em uma fase da vida que o cinema tantas vezes insiste em tratar como se já não houvesse mais nada a descobrir.
 
Hoje nos Cinemas 

Escrito por Amanda Karolyne

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