“É melhor uma Inteligência Artificial decidir quem deve ou não morrer que alguém cujos amigos foram bombardeados pelo Hamas na semana anterior…”
Quando “Sem Chão” (2024, de Yuval Abraham, Basel Adra, Hamdal Ballal & Rachel Szor) recebeu um merecidíssimo Oscar de "Melhor Documentário", um paradoxo elementar foi trazido para o primeiro plano da cerimônia: os aplausos e gritos eram entusiasmados, ainda que a (pós)produção do filme fosse marcada por ameaças, aprisionamentos e até assassinatos dos envolvidos. A denúncia fílmica foi transmitida a um número acachapante de espectadores – incluindo aqueles que viram o documentário por causa do prêmio que recebeu –, mas a própria aceitação do troféu, num luxuoso palco estadunidense, nos leva a questionar se o discurso pró-Palestina não estaria assimilado midiaticamente, como apenas mais um produto à venda…
A recepção ainda mais empolgada de “Naza” (2026, de Yuval Abraham & Rachel Szor) no Festival de Veneza devolve-nos o mesmo constrangimento paradoxal, piorado por algo que consta da própria gênese documental, em que os depoentes, (ex)soldados israelenses, têm os seus rostos, vozes e letras alterados e/ou borrados através de recursos de Inteligência Artificial, a fim de garantir a segurança dos mesmos. Como tal, não há questionamento ou dúvida acerca do que eles confessam: falou-se, converteu-se em fato, sem necessidade de contraponto. Esta é a estratégia de apresentação factual levada a cabo por este filme.
Não que se duvide da malevolência dos militares ou técnicos que contribuem para o genocídio do povo palestino – admitido nomenclaturalmente, inclusive –, mas este filme é constituído sobretudo pelo acúmulo de relatos, estendidos ao limite do insuportável por um entrevistador curioso (o próprio co-diretor Yuval Abraham), que não hesita em aderir ao sensacionalismo enquanto estratégia de choque, para comover a opinião pública internacional. À revelia de algumas convenções investigativo-documentais e jornalísticas, infelizmente.
Crédito de Imagens: Vitrine Filmes, Divulgação
NAZA conquistou o prestigiado Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza e alcançou uma marca impecável de 100% de aprovação no Rotten Tomatoes.
Na grande maioria dos setenta e sete minutos de duração, Yuval está sentado no terraço de um edifício, ao lado de algum dos entrevistados. Ele é sempre iluminado, enquanto a outra pessoa fica na escuridão, além de sabermos que a silhueta é imageticamente alterada. Em dado momento, um destes entrevistados pergunta se pode continuar falando, enquanto os aviões sobrevoam ruidosamente o espaço em que eles estão. Noutro instante, falta energia elétrica, mas os diretores continuam gravando. Idem quando ouvimos os alarmes de bombardeios. A sensação dominante é a de paranóia, o que reforça a urgência – e, por extensão, a credibilidade (?) – dos relatos. Os israelenses são os novos nazistas, chega-se até a declarar este lamentável truísmo!
A sigla constante do título é uma abreviação para a expressão hebraica “nazek agavi” que diz respeito aos efeitos colaterais de alguma decisão. Mais especificamente, designa a quantidade de pessoas civis que são mortas quando se atira nalgum alvo militar, em alguém que estava sendo perseguido por ser terrorista. Um dos soldados explica que, nas ações de que participou, “terrorista” era a pecha atribuída a alguém que precisava ser morto; num ‘flashback’ televisivo, resenha-se um livro então escrito por Benjamin Netanyahu – atualmente primeiro-ministro de Israel – em que ele definia a palavra terrorismo como “a perseguição sistemática e intencional a uma pessoa ou grupo de pessoas, por motivos políticos”. Não seria justamente o que ele faz, autorizado pelo Governo de seu país?
Crédito de Imagens: Vitrine Filmes, Divulgação
O filme se tornou um verdadeiro fenômeno de bilheteria na Itália entre setembro e outubro. Lançado em 28 de setembro, o documentário liderou as bilheterias no país e arrecadou mais de €3,4 milhões, atraindo quase 400 mil espectadores.
Quando o filme não está enfocando entrevistador (informativamente insaciável) e entrevistados (convenientemente loquazes), vemos as movimentações corriqueiras nas janelas de prédios em Tel-Aviv, em que os moradores realizam as suas atividades cotidianas, da mesma maneira que um dos soldados confessa ouvir quando está vigiando algum investigado palestino, e que o faz “sentir-se Deus”, por conta disso. Reportagens antigas, sobre a origem “mítica” de Israel, também aparecem na tela, bem como enquadramentos citadinos, como uma homenagem a Claude Lanzmann [1925-2018] na cinemateca local. Nas entrelinhas, o reconhecimento doloroso de que agia-se mal devido à imposição das determinações bélicas, mas sob a alegação conveniente de que, afinal, apenas cumpria-se ordens. Enquanto fase do treinamento militar israelense, destaca-se a audiência ao filme “Decisão de Risco” (2015, de Gavin Hood), em que aviadores precisam bombardear uma determinada localidade, mesmo percebendo que há crianças na região. Chora-se primeiro, aperta-se o botão depois: eis o aprendizado!
Na derradeira seqüência do documentário ora analisado, os diretores não refreiam o fascínio pela sanguinolência denuncista: em imagens captadas através de telefones celulares, acompanhamos o desespero de um pai de família, em meio a escombros, procurando a sua esposa e seus filhos, todos mortos. Vemos pés de várias crianças esmagadas pelas ruínas de onde havia, antes, um bairro residencial. Num dos depoimentos, um soldado confessa que não conseguia encarar as imagens de cachorros devorando os cadáveres resultantes dos ataques que ele coordenava, da mesma forma que um colega de jornada fazia. As situações emuladas são hediondas, mas também o é a manipulação opinativa – bem-intencionada, assertiva – desta obra, problemática na maneira como apresenta o tema atroz. Como pode o Estado israelense permanecer impune após a divulgação de tantos crimes? Por este motivo, “Naza” está longe de ser um filme vão, mas ele deve ser também questionado, em sua estrutura cinematográfica/documental. Voltaremos a este debate!
Trailer
Título Original e Ano: Naza, 2026. Direção e Roteiro: Yuval Abraham e Rachel Szor. Participação de: Yuval Abraham. Produção: The Guardian; JW Films (Jim Wilson). Gênero: Documentário. Nacionalidade: Reino Unido. Fotografia: Rachel Szor. Edição: Yuval Abraham, Harry Davies, Rachel Szor. Som: Lars Ginzel, Benjamin Hörbe e Rob Farr. Empresas Produtoras: The Guardian, JW Films, Placeholder Films, Unseen Hands Productions, MK2. Vendas Internacionais: MK2. Distribuição no Brasil: Vitrine Filmes. Duração: 80 minutos




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