Me Farei Ouvir, de Bianca Novais e Flora Egécia


A inclusão de minorias em espaços públicos e esferas de poder se tornaram uma pauta frequente no pós-ditadura. E no Brasil, apesar de algumas vitórias para as mulheres datarem de 1827 com o direito a meninas frequentarem escolas e aos poucos irem vencendo lutas como: direito ao voto, a frequentar universidades, portarem cartão de crédito, se divorciarem, jogarem futebol ou terem uma delegacia específica para cuidarem de atos praticados contra elas, foi só com a constituinte de 1988 que fomos legalmente reconhecidas como ''iguais'' aos homens. 

Partindo desta premissa que a ocupação do espaço e do poder político e público pela mulher ainda precisar crescer mais por não ser representativo, o curta-metragem de Bianca Novais e Flora Egécia "Me Farei Ouvir'' ganha exibição hoje (21), às 20 horas, no Cine Brasília, o patrimônio da capital federal. O documentário foi realizado por uma equipe totalmente feminina e a partir de um financiamento coletivo que bateu sua meta e a ultrapassou. Ele exibe em seus quase trinta e um minutos depoimentos dos mais diversos entre as figuras públicas que conseguiram chegar a câmara dos deputados, senado ou trabalham no âmbito estadual público defendendo seus eleitores. Entre elas, a ex-Senadora Benedita da Silva, as Deputadas Federais Áurea Carolina, Luísa Canziani, Joênia Wapichana, a Deputada estadual de São Paulo Erica Malunguinho, a Cientista Política e Professora da UnB Flávia Biroli, a Advogada Eleitoral Gabriela Rollemberg, a Ex-candidata e Administradora Ilka Teodoro, a Prefeita Comunitária em Ceilândia Ivanete Oliveira, a Ex-Governadora do Distrito Federal Maria Abadia e a Ex-Senadora Marta Suplicy.

No filme, todas estas mulheres juntas relatam os abusos sofridos, os inúmeros preconceitos, a tentativa de desonra e situações que tiveram que passar ou ainda passam por estarem ocupando um espaço majoritariamente masculino, misógino, racista e etc.

Créditos: Divulgação         

O filme se abre com uma pergunta muito pertinente da advogada e Deputada Federal  Joênia Wapichana, a única representante indígena dentro da Câmara, '' Qual a finalidade desse filme?''. E ao assistirmos todas estas mulheres e figuras públicas declararem o que passam desde o dia que decidiram trilhar o caminho da vida política, entendemos que ele vem com a meta de instigar mais e mais o sexo feminino a buscar por igualdade de gênero em qualquer espaço e, principalmente, no meio político. Joênia reflete sobre falas extremamente preconceituosas que recebeu ao adentrar fisicamente este universo por parte de uma funcionária da câmara que deve orientar as pessoas a pegarem o elevador por lá, '' a senhora tem que ir para o outro lado, aqui só parlamentar''. A deputada retrucou dizendo que era sim, pois tinha o broche que a validava como tal, porém, a funcionária continuou a soltar frases descabidas sobre a aparência de Joênia e entre outros. Destaca então a deputada que o espaço como um todo não está preparado ainda para receber o seu povo e reconhecê-lo como demandante de direitos e deveres como diz a constituição.                                                                                                                       
       Créditos: Divulgação        

Outro depoimento que causa bastante impacto é o da Deputada estadual de São Paulo Erica Malunguinho que relembra com ironia os nomes que escuta por ser uma mulher trans e estar neste ambiente que ela conquistou e tem todo o direito de ocupar. Também comenta que o tal ''racismo velado'' ou a transfobia causam perseguição e os preconceitos com sua pessoa, ou com mulheres pretas e trans, vão se somando. Extremamente bem preparada e eloquente, Erica fala que a diversidade é sim uma obrigação do espaço politico e que quando criança já se via neste lugar de destaque, pois simulava eleições e vendia os candidatos que encontrava nos coleguinhas da rua - ali um interpretava Lula e outro Collor. Com argumentações que enaltecem o poder feminino e o seu levante, a Deputada, assim com a parlamentar e Ex-Senadora Benedita da Silva, são representações muito relevantes dentro do quadro político como um todo.

Benedita da Silva, tem uma história impressionante de luta, aliás, e fala desta culpa ou deste sentimento de estar em um lugar esperando para dar a mão a outras mulheres, principalmente, mulheres pretas, e estas demorarem a chegar - ''eu estou aqui para fazer com que outras mulheres venham para cá''. Participou da Constituinte, assim como a Ex-Governadora Maria Abadia, e conhece dos pormenores da época para uma mulher estar ali. 

Me Farei Ouvir destaca dois pontos marcantes da jornada feminina recente que são o Impeachment da Ex-Presidenta Dilma e o assassinato da Vereadora Marielle Franco. Estes dois momentos são interrompimentos do caminhar feminino dentro do poder público escrachadamente machistas e misóginos. No entanto, também houve uma alavancada das estatísticas que evidenciam o aumento de mulheres na política. Ainda que estas tenham surgido para cumprir algum tipo de cota partidária e agir de forma mais masculinizada.

Créditos: Divulgação      

Se os espectador tem medo que o filme venha ser de esquerda ou de direita, fique tranquilo. O curta não toma partido neste sentido. Ele vem para falar do feminino e suas lutas. Assim, traz figuras de diversos pensamentos políticos distintos - o que evidencia ainda mais o poder do patriarcado e o que sua misoginia faz. Pois em qualquer lado que a mulher esteja, as situações constrangedoras por não serem ''machos'' poderá vir. A ex-senadora Marta Suplicy, por exemplo, fala de como a mulher pública recebe criticas por um sapato que usa, por uma roupa ou se estão sequer arrumadas. Desaprova o trabalho da mídia neste ponto e revela que esta é muito mais cruel com uma mulher no poder do que com um homem. Também diz que o partido só trabalhava a favor dela quando ''havia o interesse'' e este podia não ocorrer - algo equivocado já que o partido deveria sim exercitar suas ferramentas de influência para construir um melhor espaço para o feminino. Marta Suplicy que já foi apresentadora de tevê, enquanto seu ex-marido era um homem público, conta que a política também chegou a atrapalhar seu relacionamento com o filho Supla, comentário até inesperado, mas que cabe via a questão da maternidade na vida das mulheres. 

Trailer

Ficha Técnica

Título original e ano: Me Farei Ouvir, 2022. Direção: Bianca Novais e Flora Egécia Roteiro e Pesquisa: Dandara Lima. Participações de: Senadora Benedita da Silva, Deputadas Federais Áurea Carolina, Luísa Canziani, Joênia Wapichana; Deputada estadual de São Paulo Erica Malunguinho; Cientista Política e Professora da UnB Flávia Biroli; Advogada Eleitoral Gabriela Rollemberg; Ex-candidata e Administradora Ilka Teodoro; Prefeita Comunitária em Ceilândia Ivanete Oliveira; Ex-Governadora do Distrito Federal Maria Abadia; e Ex-Senadora Marta Suplicy. Gênero: Documentário. Nacionalidade: Brasil. Trilha original: Ellen Oléria e Paola Lappicy. Som direto: Jéssica Barros e Juliana Santana. Assistência de Direção: Natália Duarte. Direção de Produção: Julia Tolentino e Lia Tavares. Operação de Câmera: Liss Fernández, Barbara Rodarte e Heloisa Abreu e Lívia Brito. Assistência de fotografia: Erica Oliveira. Fotografia Still: Janine Moraes. Direção de Arte: Bianca Novais e Flora Egécia. Produção de objetos: Rafaelly. Godoy Transporte: Angélica Rodrigues. Design de Som: Lyn Santos. Color Grading e Finalização: Raíssa Vilela. Pesquisa de Imagens: Cibele Tenório. Consultoria de Roteiro: Alice Lanari. Tradução e Legendagem: Entreasas Tradução e Acessibilidade. Produção Executiva: Vanessa Medrado. Realização: Estúdio Cajuína e Pavio Criativo. Duração: 30min.
Há relatos ainda sobre a questão da jovialidade, não só como a aparência destas figuras, dos ataques midiáticos que ferem a família, dos relacionamentos amorosos que podem se acabar por conta do crescimento e da exposição e muitas outras reflexões que transparecem uma necessidade ainda latente de que este estar na política tenha força o suficiente para superar o leque de dilemas que mulheres precisam enfrentar e homens não.   

Serviço:

Documentário Me Farei Ouvir

Local: Cine Brasília

Endereço: EQS 106/107, Brasília-DF

Data: 21 de setembro de 2022 (quarta-feira)

Horário: 20h

Entrada gratuita (ingressos de acordo com a lotação do local)

Escrito por Bárbara Kruczyński

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