Os Roses - Até Que A Morte Os Separe, de Jay Roach

 
Quando o livro A Guerra dos Roses, de Warren Adler, chegou às prateleiras em 1981, o mundo era outro, logo, consequentemente, as relações matrimoniais também. Na obra, Oliver e Barbara Rose representam o padrão do casal da época: ele, um advogado de sucesso; ela, dedicada ao papel de mãe e dona de casa. Tudo muda quando Oliver sofre um enfarte quase fatal e Barbara percebe que já não nutre qualquer sentimento por ele. Decidida a pôr fim ao casamento, já também após conquistar seu espaço como chefe de um buffet, impõe uma condição: não abrirá mão da casa que ambos construíram. O best-seller ganhou adaptação cinematográfica em 1989, dirigida por Danny DeVito, que também atua no longa. Com um tom cômico e repleto de sátiras, o filme (disponível no Disney+) mostra como duas pessoas que um dia se amaram podem se transformar em rivais implacáveis, engalfinhando-se para decidir quem ficará com "o bem mais valioso" da relação: a casa onde vivem. 

A trama ganha uma reinterpretação brilhante em "Os Roses - Até Que A Morte Os Separe", com a oscarizada Olivia Colman e o indicado ao Oscar Benedict Cumberbatch assumindo os papéis que um dia foram de Michael Douglas e Kathleen Turner. Sob o olhar de Jay Roach (O Escândalo, 2019) e com roteiro de Tony McNamara (Pobres Criaturas, 2024), a história ganha nova vida ao ser atualizada para os dias de hoje, dialogando diretamente com os debates contemporâneos sobre os papéis femininos e masculinos na sociedade. Aqui, Theo, um arquiteto renomado e metódico, conhece Ivy, uma talentosa chef de cozinha. Ambos ingleses, se apaixonam após uma relação intensa e logo decidem formar uma família, mudando-se para a Califórnia, nos Estados Unidos. Com os filhos, Ivy dedica-se ao afeto e à comida caseira, enquanto Theo impõe regras rígidas, chegando a vetar até o consumo de açúcar. A vida parece estável: ele mergulhado em seus projetos e ela à frente de um pequeno restaurante especializado em caranguejos. No entanto, tudo muda quando uma tempestade destrói o grande projeto da carreira de Theo, deixando-o sem emprego e sem prestígio. Quase simultaneamente, Ivy recebe a visita de uma crítica gastronômica, cuja avaliação excepcional transforma seu restaurante em sucesso imediato. De repente, ela se torna uma chef aclamada, requisitada em outros estados, trazendo mais dinheiro e notoriedade para a família. Esse sucesso, contudo, a distancia dos filhos justamente no início da adolescência, forçando Theo a assumir o papel que nem sempre assisti-se os homens ganhar e ficando próximo as crianças diariamente. Sob sua disciplina rígida, a garotada rapidamente muda: adotam dietas, praticam exercícios e se preparam com afinco para universidades e cursos que prometem levá-los ainda mais longe. O sucesso de Ivy traz consigo dinheiro para que eles construam uma super e confortável casa para a família em um desenho idealizado e tocado por Theo, afinal sua carreira degringolou e ele não conseguiu superar facilmente a vergonha nas redes. Os amigos do casal, Amy e Barry, vividos por Kate Mckinnon e Andy Samberg, ficam bestificados com o lugar e todos também adoram.

Embora tudo pareça perfeito, Theo percebe que já não sente afeto por Ivy. Mesmo com tentativas de resgatar a relação — como viagens de última hora — nada mais se encaixa, e a separação parece inevitável. O impasse, porém, se torna ainda mais doloroso quando Ivy, apesar de não querer o fim do relacionamento, também se vê inclinada a desejar a ruptura. A partir daí, o casal mergulha em um verdadeiro pesadelo de farpas, ressentimentos e até violência, cada um tentando forçar o outro a deixar a casa. Com os filhos já distantes, focados em seus estudos, a relação entra em colapso definitivo. Nem mesmo a terapia é capaz de salvar aquilo que, no fundo, nenhum dos dois tem vontade real de reconstruir. 

O ex-Doctor Who Ncuti Gatwa integra o elenco ao lado de Allison Janney e Sunita Mani. Gatwa interpreta Jeffrey, um dos dedicados ajudantes do restaurante, enquanto Sunita dá vida a Jane, que também assiste Ivy em sua equipe. Já Allison Janney assume o papel de uma advogada implacável, contratada por Ivy no momento decisivo do divórcio.

Crédito de Imagens: Courtesy of Searchlight Pictures. © 2025 Searchlight Pictures All Rights Reserved.
No filme de Danny DeVito, a trama ganha um narrador, já no longa de Roach, o filme se apresenta como uma narrativa mais direta e realista

O filme é, de fato, muito bem escrito, com atuações marcantes (que elencão!) e uma atualização precisa para os dias de hoje. Ambientado em um contexto pós-pandemia, ganha ainda mais relevância ao dialogar com questões atuais sobre os papéis que as mulheres assumem — muitas vezes não aceitos ou sequer compartilhados pelos homens — e sobre a dificuldade masculina em lidar com o sucesso e a autonomia de suas parceiras. A primeira adaptação já explorava esse tema de forma pontual, mas é aqui que ele realmente se expande e ganha corpo. Além disso, as diferentes fases da relação são retratadas com mais profundidade, e há uma sensibilidade maior ao abordar a culpa que muitas mulheres carregam por se distanciarem dos filhos para seguir seus sonhos.

Em alguns momentos, se assiste as hilárias tentativas de Amy (McKinnon) de fazer com que Theo traia a esposa, mas nada real acontece. Tais cenas apresentam o trabalho consistente de Cumberbatch que constrói um personagem com pequenas integridades e nuances raras na representação de um pai dedicado - claro, proposta pela eventualidade da perda do emprego. O ator, dois anos mais jovem que Colman (49 contra 51), carrega uma sólida formação teatral e shakespeariana, algo perceptível em praticamente todos os seus papéis. Já Colman, com uma extensa carreira dramática na televisão e no cinema britânico, conquistou seu primeiro Oscar recentemente pelo filme de Yorgos Lanthimos "A Favorita (2018)". Juntos, Cumberbatch e Colman conseguem com vigor fazer o público rir, se emocionar e ficar espantado com as peripécias de um casal que não tem nada de "floral". Química e talento em tela. É de se maravilhar!

Trailer



Ficha Técnica 

Título Original e ano: The Roses, 2025. Direção: Jay Roach. Roteiro: Tony McNamara (baseado no romance de Warren Adler. Elenco: Benedict Cumberbatch, Olivia Colman, Andy Samberg, Allison Janney, Sunita Mani, Ncuti Gatwa, Kate McKinnon, Belinda Bromilow, Jamie Demetriou, Zoë Chao. Gênero: Comédia, Sátira, Remake. Nacionalidade: EUA, Reino Unido. Fotografia: Florian Hoffmeister. Edição: Jon Poll. Trilha Sonora Original: Theodore Shapiro. Figurino: PC Williams. Design de Produção: Mark Ricker. Direção de Arte: Kevin Timon Hill. Produtoras: Garden Studios, Adler Entertainment Trust, South of the River Pictures, SunnyMarch. Distribuidora: Searchlight Pictures. Duração: 1h45min.

Com uma fotografia cheia de tons quentes e vivos, uma edição acentuada e certeira, o longa vem com uma trilha sonora que aparece aqui e ali e se inicia, aliás, ao som de "Happy Together" (The Turtles, 1967), na voz de Susanna Hoffs (esposa do diretor) e Rufus Wainwrighte estabelece um tom encantador para aquela que se revela uma das estreias imperdíveis da semana.

HOJE NOS CINEMAS 

Escrito por Bárbara Kruczyński

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