Zafari, de Mariana Rondón | Assista nos Cinemas


“O hipopótamo está com fome: ele está comendo terra!”


Um dos aspectos mais interessantes dos filmes com atmosfera distópica, situados num “futuro próximo”, é que aquilo que os seus enredos apresentam como atordoante pode estar acontecendo nos dias atuais, sendo válidas as comparações com situações contemporâneas. E, obviamente, a associação entre o que é mostrado em “Zafari” (2024) e o modo espalhafatoso com que as condições socioeconômicas da Venezuela são apresentadas em telejornais  surge como chamariz imediato. Ainda que a película prefira abordar a lógica política em seu aspecto mais elementar: o modo como as pessoas se relacionam com quem está ao seu redor… 

Dirigido por Mariana Rondón, responsável pelo famosíssimo “Pelo Malo” (2013), este filme possui outro aspecto que o diferencia positivamente em relação às tramas advertentes sobre algo prestes a acontecer: não explica em excesso, prefere que o espectador preencha as lacunas que desencadearam aquilo que é exposto no entrecho, prestando atenção ao desenvolvimento das relações entre os personagens. 

Nos créditos de abertura, a música suave da compositora Pauchi Sasaki é sobreposta à focalização de uma piscina idílica, num condomínio de luxo. Por razões que não compreendemos, cabe ao casal Ana (Daniela Ramírez) e Edgar (Francisco Denis) a administração desta piscina, e a mesma está quase sempre vazia, exceto por uma garotinha que nada sozinha. Até que algo inusitado acontece numa moradia ao lado, onde há um zoológico: chega um hipopótamo de oitocentos e oitenta quilos, o Zafari do título! 

Logo se compreende que aquelas pessoas vivem em estado de penúria: víveres, água potável e material de limpeza são escassos, e Ana vasculha os apartamentos vazios, em busca de algo que possa se apropriar, para alimentar a si mesma, ao marido e ao filho Bruno (Varek La Rosa). É quando, de repente, uma família extensa requer o direito de também nadar na piscina. É apenas o começo do acirramento de conflitos entre estas pessoas! 

Crédito de Imagens: Artefactos S.F, Klaxon Cultura Audiovisual, Paloma Negra Films, Quijote Films, Selene Films, Still Moving, Sudaca Films - Vitrine Filmes - Divulgação
O longa contou com passagens no San Sebastián International Film Festival e pela Mostra Internacinoal de Cinema, no último ano

De comportamento iracundo, Edgar recusa-se inicialmente a permitir que seus vizinhos usufruam da piscina, mas é obrigado a ceder, depois de uma votação interna entre os moradores do condomínio. Como e por que eles estão ali é algo que não sabemos direito, mas fica evidente que todos desejam fugir, o que é dificultado pela existência de gangues de motoqueiros que saqueiam a cidade de Caracas (nota: um dos motivos para as filmagens ocorrerem na República Dominicana). Por conta disso, Ana, Edgar e Pedro tornam-se cada vez mais confinados, demonstrando a validade de uma afirmação do marido da protagonista, que alega que “a fome prolongada faz com que as pessoas fiquem inicialmente ansiosas, e logo selvagens”. Infelizmente, procede! 

Dentre as pessoas com quem Ana interage no condomínio, estão Francisco (Juan Carlos Colombo), um senhor idoso que sofre de Mal de Alzheimer, e um jovem apelidado de Mata-Cachorros (Claret Quea), que confirmará a adequação de seu apelido numa seqüência atordoante, envolvendo uma zebra. O detalhe perturbador: por algum motivo, a família escolhida (pelo Governo?) para cuidar do zoológico possui alguns benefícios tangenciais, mas a maior parte da comida que eles recebem é direcionada apenas aos animais. Conforme se teme, esta também começa a rarear…

Trailer

Ficha Técnica


Título Original e Ano: Zafari, 2024. DireçãoMariana Rondón. RoteiroMariana Rondón, Marité Ugás. ElencoDaniela Ramirez, Francisco Denis, Samantha Castillo, Varek La Rosa, Claret Quea, Juan Carlos Colombo, Alí Rondón. Gênero: Drama. Nacionalidade: Peru, Brasil, Venezuela, México, França, Chile e República DominicanaFotografiaAlfredo Altamirano. MontagemIsabela Monteiro de Castro. SomFranklin Hernandéz, Graciela Barrault. Desenho de SomLena Esquenazi. MúsicaPauchi Sasaki. Design de ProduçãoDiana Quiróz. ProduçãoMariana Rondón, Sterlyn Ramírez, Giancarlo Nasi, Juliette Lepoutre, Pierre Menahem, Rafael Sampaio, Cristina Velasco L, Jorge Hernández Aldana, Marité Ugás. Produzido porSudaca Films, Paloma Negra Films, Klaxon Cultura Audiovisual, Still Moving, Quijote Films. Coproduzido porSelene Films, Artefactos Films, Spcine. DistribuiçãoVitrine Filmes. Duração: 100 minutos. Classificação indicativa: 12 anos.


Enquanto Edgar age de maneira progressivamente psicótica, alegando não mais amar a sua esposa (preferindo masturbar-se a fazer sexo com ela) e apropriando-se egoisticamente das latas de comida que ela esconde pela residência, Ana deambula sem parar pelo prédio, no afã por encontrar algo para suster a sua família. Sua magreza acachapante é exposta mais de uma vez, e o filme atinge píncaros assustadores, fazendo com que o longa-metragem seja assaz contundente em seu discurso de instauração de cautela, desenvolvido através das convenções de terror psicológico. Uma produção muito forte, que é hábil ao encerrar-se de maneira aberta, mais uma vez requerendo que o espectador preencha as lacunas tramáticas com a sua inteligência e sensibilidade. Trabalho excelente de uma realizadora versátil e habilidosa. Recomenda-se de maneira enfática: é ano eleitoral, afinal. É urgente prestar atenção a quem estará nos representando, na iminência de uma crise!

HOJE NOS CINEMAS

Escrito por Wesley Pereira de Castro

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