“A doença verdadeira era a velhice. Não nos curamos disso!”
O cineasta François Ozon é um dos realizadores mais prolíficos da atualidade, lançando praticamente um filme por ano (às vezes, mais de um) e entremeando a sua já vasta filmografia com chistes experimentais de gênero e releituras atualizadas de obras dos autores que mais o influenciaram. Na primeira categoria, destacamos o extraordinário “8 Mulheres” (2002), o estiloso “Angel” (2007), o hilário “Ricky” (2009) e o metalingüístico “Dentro da Casa” (2012); na segunda, títulos como “Gotas d’Água Sobre Pedras Escaldantes” (2000), baseado numa peça teatral fassbinderiana, e “Frantz” (2016), regravação de um clássico dramático lubistchiano. Entre uma e outra categoria, trabalhos menos pretensiosos, porém inspirados, como “O Amor em 5 Tempos” (2004), “Jovem e Bela” (2013) e “Verão de 85” (2020). Nem sempre ele acerta, mas consegue estimular debates…
“O Estrangeiro” (2025) faz parte do grupo das adaptações: ao converter em material cinematográfico a novela publicada por Albert Camus [1913-1960] – publicada em 1942, mas já levada às telas, no ano de 2001, por Zeki Demirkubuz na Turquia, e por Luchino Visconti [1906-1976], em 1967, e transformada em canção pela banda britânica The Cure, em 1979, que aparece nos créditos finais do filme ora resenhado –, o diretor francês adiciona algumas de suas marcas registradas (o homoerotismo demarcante, no modo como são enquadrados os corpos dos atores, por exemplo), mas respeita de maneira até surpreendente o texto original. E com resultados irregulares.
O filme inicia-se como ‘flashback’, diferenciando-se da famosa abordagem subjetiva que, no livro, demarca a apatia emocional do protagonista Meursault (Benjamin Voisin), através da perturbadora frase de abertura: “mamãe morreu hoje. Ou talvez ontem, não sei”. No filme, Meursault explica para os companheiros de cela as circunstâncias, puramente casuais, que levaram-no a assassinar um árabe, em Argel, no final da década de 1930.
Crédito de Imagens: Manuel Dacosse - FOZ e Gaumont / Califórnia Filmes, Divulgação
O longa foi apresentado no Festival de Veneza, em setembro do ano passado, e também chegou a passar pelo Festival do Rio, em outubro do mesmo ano
Depois de um curto documentário de época, percebemos Meursault dormindo, até ser despertado por alguém que bate à sua porta, e entrega-lhe um telegrama, com a notícia fatídica. Tal qual acontece no livro, ele pede dois dias de folga e participa dos ritos fúnebres ansiados por sua mãe, que era interna num asilo. Entretanto, ele não demonstra emoção quanto ao que efetiva, o que chama negativamente a atenção dos presentes no velório, incluindo um velhinho que alega ser o noivo da falecida.
Encerrados os ritos fúnebres, mas ainda em folga de seu trabalho, Meursault resolve banhar-se, e encontra Marie (Rebecca Marder), indisfarçadamente apaixonada por ele. Vão juntos ao cinema, onde assistem à comédia “Schpountz, o Anjinho” (1938, de Marcel Pagnol), e, depois transam. Meursault continua com a sua vida corriqueira, incomodando a alguns por seu jeito taciturno. Interage com o vizinho Salamano (Denis Lavant), que passeia constantemente com um cachorro idoso, a quem agride, e com o cínico Raymond (Pierre Lottin), que espanca a amante argelina (Hajar Bouzaouit) e pede que Meursault testemunhe em seu favor. Tudo isso voltará num julgamento, na segunda metade do filme…
Trailer
Ficha Técnica
Título original e ano: L'Étranger, 2025. Direção : François Ozon. Roteiro: François Ozon, com colaboração de Philippe Piazzo, baseado no livro homônimo de Albert Camus. Elenco: Benjamin Voisin, Rebecca Marder, Pierre Lottin, Denis Lavant, Swann Arlaud, Mireille Perrier, Christophe Malavoy, Nicolas Vaude, Jean-Charles Clichet, Hajar Bouzaouit. Nacionalidade: França, Bélgica, Marrocos. Gênero: Drama, Crime. Casting: Anaïs Duran, Hossein Sabir. Fotografia: Manuel Dacosse. Montagem: Clément Selitzki. Direção de Arte: Katia Wyszkop. Figurino: Pascaline Chavanne. Maquiagem: Nathalie Tabareau. Música Original: Fatima Al Qadiri. Som: Emmanuelle Villard, Jean-Paul Hurier, Julien Roig, Benjamin Viau. Produção: François Ozon. Empresas Produtoras: FOZ e Gaumont. Coprodução: France 2 Cinema, Macassar Productions, Scope Pictures. Apoio: Canal+. Em associação: Cinéventure 11, Indéfilms 14, Cinémage 20, Cofinova 22. Participação: Ciné+OCS e France Télévisions. Distribuição: Califórnia Filmes. Duração: 02h02min.
Em pouco mais de duas horas de duração, acompanhamos Meursault personificando crises de existencialismo que têm tudo a ver com a filosofia camusiana, mas as seqüências passadas na prisão não são tão assertivas quanto os passeios e lidas ambivalentes com os prazeres, por parte do protagonista, visto que o olhar intencionalmente inexpressivo de Benjamin Voisin desperdiçam o potencial dramático de cenas fortes, como a visita de Marie, em meio à algaravia de outras mulheres, por detrás de grades, e a insistência de um padre (Swann Arlaud) em conceder uma bênção a Meursault, que afirma não acreditar em Deus e declara que, pela primeira vez, está permitindo abrir-se à “terna indiferença do mundo”.
Muitíssimo bem fotografado, em preto-e-branco, por Manuel Dacosse, colaborador habitual do diretor, e musicado por Fatima Al Qadiri, “O Estrangeiro” respeita as idiossincrasias da narrativa original, sendo fiel ao desenrolar dos eventos e à caracterização dos personagens, ainda que, conforme dito, François Ozon faça questão de demarcar as suas obsessões eróticas (vide o ‘close-up’ marcante numa das axilas de Abderrahmane Dekhani, antes do personagem Moussa ser assassinado, e a acolhedora troca de olhares entre Meursault e um de seus colegas de cela). Trata-se de uma adaptação respeitosa, que faz uma válida autocrítica ao colonialismo francês e apresenta-nos às mazelas associadas à dificuldade em demonstrar sentimentos – ou, ainda pior, à incapacidade de sentir alguns deles, como acontece ao protagonista. O cenário dominante do tribunal, na segunda metade da trama, não fascina tanto quanto a reconstituição citadina da primeira metade, mas é um filme que merece aplausos pelos excelentes atributos técnicos e pela eficiente indução contemporânea das preocupações filosóficas da obra original. Não chega a recuperar o elã da fase exordial da filmografia ozoniana, mas possui vários méritos. Recomendamos!







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