“Por que Deus tirou a costela de Adão para criar Eva? Seria diferente se Ele tivesse feito ela diretamente do barro?”
Em determinado momento de “Incompatível com a Vida” (2023), extraordinário documentário anterior da realizadora Eliza Capai, narrado em primeira pessoa, ela explica que, em seus outros filmes, ela aborda os cotidianos de pessoas com cotidianos radicalmente distintos do seu, “como se estivesse colocando um espelho diante delas”, a fim de compreendê-las e a si mesma. E é exatamente o que acontece neste novo trabalho, acentuadamente lúdico, em que a narração compartilhada é concedida a garotinhas do município de Guaribas, no Piauí.
Localizado na região sudoeste do Estado nordestino, de clima semiárido, este município apresentou o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil, no início do século XXI, sendo o local pioneiro para implantação de várias medidas assistencialistas do lulismo, como o projeto Bolsa Família, o que é refletido em algumas falas das meninas, que brincam com os estigmas de pobreza associados à cidade.
Na abertura do filme, que ecoa o livro bíblico do Gênesis, duas das meninas explicam o dispositivo em que se baseará a narrativa dos encontros: elas construíram a máquina do tempo titular e inquirirão as pessoas acerca do quão satisfeitas elas estão quanto às próprias vidas e se preferem viajar para o passado ou para o futuro…
Trailer
Ficha Técnica
Título Original e Ano: A Fabulosa Máquina do Tempo, de 2026. Direção: Eliza Capai. Elenco: Alice, Ana, Ana Vitoria, Joice, Laiane, Larissa, Laura, Lorenna, Manu, Manuellinha, Safira, Sophia, Thaemmy, Thabata. Gênero: Documentário. Nacionalidade: Brasil. Montagem e Roteiro: Daniel Grinspum e Eliza Capai. Direção de Fotografia: Carol Quintanilha. Som direto: Luisa Lemgruber. Direção de Produção: Clarice Rios. Ass. de Produção exec.: Jac Melo. Trilha Sonora Original: Décio 7 com participação especial de Juliana Linhares. Desenho de Som: Daniel Turini. Supervisão de Som: Marília Mencucini. Mixagem: Julia Teles. Colorista: Maisa Joanni. Coord. de Pós: João Gila. Desenho de Créditos e Cartaz: Joana Amador e Fiteiro. Produzido por: Mariana Genescá. Produção executiva: Mariana Genescá. Distribuição Nacional:Descoloniza Filmes. Vendas internacionais: Split Screen. Duração: 01h10min.
Por motivos óbvios, a diretora opta por entrevistar as meninas, adotando a lógica do feminismo orgânico: ela questiona as garotinhas acerca do que elas querem ser quando crescer e do que notam como principais diferenças entre homens e mulheres. As respostas são dilacerantes: “o homem bebe cachaça e pode ficar pelas ruas, enquanto a mulher fica em casa, cuidando dos filhos”. As experiências pessoais daquelas meninas, permeadas por tristezas familiares, são imediatamente apresentadas: onde elas vivem, o homem é considerando “o gigante da mulher” e a geração de suas mães foi demarcada por adolescentes que se casaram – ou melhor, fugiram e “ajuntaram-se” – com homens adultos. Mas tudo mudou quando água encanada e energia elétrica chegaram à cidade, como explica uma senhora…
Respeitando o caráter fantasioso dos anseios infantis, o filme faz uso de uma banda sonora que hipertrofia os ruídos, de maneira quase circense. Enquanto investiga as transformações sociais ocorridas naquela pequena comunidade, a diretora percebe um fenômeno manifesto em todo o país: o crescimento avassalador das igrejas evangélicas, sendo que, numa seqüência impressionante, as garotas são mostradas numa escola bíblica, interpretando a canção “Sobrevivi”, de Sarah Farias. De repente, elas trocam de roupas e exibem-se dançando canções de ‘funk’ com letras obscenas, como “Parecia Tempestade”, de Mc Danny. A diretora pergunta às meninas o que elas entendem quando o cantor fala que uma mulher vai “tomar banho de leite”. As meninas não sabem, obviamente. E este é, também, um dos temas do filme!
Crédito de Imagens: Descoloniza Filmes, Divulgação
A produção entrou no shortlist da Academia Brasileira de Cinema para ser o representante do Brasil no Oscar
Noutro momento pungente, acompanhamos o desamparo das meninas ao se sentirem desprezadas por uma amiga um ano mais velha que, depois de ter menstruado, não quer mais brincar com elas. A puberdade surge como uma ameaça, que destrói repentinamente o acesso à diversão que elas aproveitam naquele instante, de modo que, ao lerem um capítulo sobre reprodução humana, num livro escolar, elas dizem que não querem estudar o conteúdo do oitavo ano (correspondente à sétima série do ensino ginasial). Na prática, eles intuem o que acontecerá, mesmo que não compreendam efetivamente os lamentos das pessoas mais velhas. Os poucos adultos do sexo masculino que vemos, de fato, estão bêbados. Pobreza tem menos a ver com privação de objetos materiais que com o tratamento concedido às pessoas!
Sobremaneira delicada em sua abordagem e indisfarçadamente militante naquilo que traz à tona, através de seu aparato fílmico, Eliza Capai é interrogada, às vezes, pelas meninas, principalmente quando elas explicam as suas preocupações com a noção de Pecado, o que não é referendado pela diretora. O julgamento sai espontâneo: “tá vendo? Este é o teu pecado!”. No roteiro e na montagem, Eliza Capai conta com a colaboração de Daniel Grinspum, com quem já trabalhara anteriormente, tanto quanto com o músico Décio 7, responsável pela trilha musical. Trata-se de um filme que, em sua leveza, encara de frente questões delicadíssimas, justificando os prêmios aos quais a realizadora habituou-se em receber. Super talentosa, ela!
Festivais de Cinema





0 comments:
Postar um comentário
Pode falar. Nós retribuímos os comentários e respondemos qualquer dúvida. :)