Águias da República, de Tarik Saleh l Assista nos Cinemas

 

“As palavras são como roupas para os pensamentos’ (Samuel Beckett)”


Nascido e criado em Estocolmo, mas vinculado ao Egito por conta de sua ascendência paterna, o cineasta Tarik Saleh é considerado ‘persona non grata’ neste país, e precisa recorrer a cenários estrangeiros (na Turquia, sobretudo) para reconstituir os eventos que apresenta em sua Trilogia do Cairo – formada pelos longas-metragens “O Incidente no Nile Hilton” (2017), “Garoto dos Céus” (2022) e pelo recém-lançado “Águias da República” (2025). Em cada uma destas obras, num estilo narrativo à la Costa-Gavras, ele denuncia a corrupção e as contradições políticas deste país, o que desagradou violentamente às autoridades locais… 

Para quem está desacostumado a assistir a filmes egípcios, a primeira seqüência do filme mais recente demonstra que este país possui uma indústria cinematográfica imponente, acostumada aos gêneros populares, como filmes de ação e/ou dramas românticos – conforme expunha o extravagante Youssef Chahine [1926-2008], em suas maravilhosas superproduções. Porém, a correlação entre Estado e religião instaura uma censura temática, de modo que a licenciosidade de alguns enredos é francamente evitada. O filme que o protagonista desta produção está realizando – um pasticho de “O Demônio das Onze Horas” (1965, de Jean-Luc Godard) – é alvo da vigilância estatal, e algumas cenas são proibidas. Para piorar, este protagonista, o astro George Fahmy (Fares Fares), é recrutado para interpretar o ditador Abdel Fattah el-Sisi, que governa o país desde 2013… 

Mulherengo e bastante famoso, mas inseguro em sua vida pessoal, George está passando por um divórcio recente e evita fazer comentários políticos, ainda que seja evidente a sua aversão pelo supracitado ditador. Por motivos óbvios, ele recusa a proposta de atuação, num filme de descarada propaganda, mas é obrigado a aceitar a proposta, depois que a sua família é ameaçada. Durante as filmagens, ele envolve-se numa conspiração deveras intricada… 

Romanticamente envolvido com Donya (Lyna Khoudri), uma aspirante a atriz que tem a idade de seu filho, George reluta em admitir que está envelhecendo, o que rende algumas situações cômicas, quando ele se disfarça para comprar Viagra numa farmácia, por exemplo, ou quando, mais tarde, ele ingere o referido estimulante sexual, encontra Donya aos prantos, pois seu pai falecera, e não consegue evitar as ereções: “a minha tristeza é excitante para ti?”, pergunta ela. A situação ficará mais drástica, daí por diante… 

Crédito de Imagens: Unlimited Stories, Apparaten e Memento Films Production / Imovision, Divulgação
O longa foi submetido a categoria de "Melhor Filme Internacional" pela Suécia ao Oscar 2026

Considerado um canastrão pelo Dr. Mansour (Amr Waked), autodeclarado produtor do filme-propaganda que biografa o golpe perpetrado por el-Sisi, George logo percebe a total ausência de fidedignidade aos fatos no roteiro, sobretudo no que tange ao “embelezamento” do personagem real, que é careca e de baixa estatura, entre outras características alteradas no filme dentro do filme. Entretanto, este consentimento forçado faz com que ele consiga negociar alguns benefícios, como a soltura do filho de um vizinho, preso por protestar contra o regime. Evidentemente, isto traz consigo um alto preço e, do meio para o final, há uma reviravolta surpreendente, que faz com que o discurso do filme estenda a sua aversão a toda e qualquer regime opressivo: onde não há confiança, a paranóia é generalizada e todos podem ser considerados espiões ou inimigos! 

Numa personificação que surpreende pela ambigüidade, visto que George se torna cada vez mais complexo emocionalmente, Fares Fares oferta uma excelente interpretação, que corresponde ao ponto de vista do espectador, visto que sabemos basicamente o que ele sabe, quanto ao que está acontecendo ao redor, sendo inevitável o nosso desamparo na situação final, que converte o desfecho em aberto num recado para todos nós: se permitirmos o avanço da corrupção, o que ocorreu no Egito também pode acontecer onde vivemos! 

A trilha musical de Alexandre Desplat conduz de maneira hábil as variações tramáticas do filme, já que “Águias da República” concatena convenções dos filmes de suspense, do drama político e da comédia eventual, com acentuada ênfase crítica, como no instante em que, ao se deparar com a enorme quantidade de figurantes numa cena histórica, ele exclama: “até parece ‘Os Dez Mandamentos’ (1956, de Cecil B. DeMille)!”. O detalhe: este clássico estadunidense corresponde à usurpação de um mito egípcio, citado na Bíblia, por Hollywood. Ou seja: são inúmeros os toques de brilhantismo no roteiro e na direção de Tarik Saleh, que consegue divertir, entreter, nos assustar e nos fazer refletir sobre a situação política dos países – qualquer país! – na contemporaneidade, em meio ao neoliberalismo. George não aceita um suspeitoso encontro com uma amante, num quarto de luxo do pitoresco hotel Ramsés Hilton (sic), por acaso!

Trailer


Ficha Técnica
Título original e ano: Eagles of the Republic,2025. Direção e Roteiro: Tarik Saleh. Elenco: Lyna Khoudri, Fares Fares, Cherien Dabis. Gênero: Drama, Thriller. Nacionalidade: Suécia, França, Dinamarca. Direção de fotografia: Pierre Aïm, AFC. Direção de Arte: Roger Rosenberg. Som: Hans Møller. Montagem: Theis Schmidt.  Produção: Linus Stöhr Torell, Johan Lindstrom, Linda Mutawi, Alexandre Mallet-Guy. Distribuidora: Imovision. Tempo: 129 min
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Escrito por Wesley Pereira de Castro

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