Razão e Sensibilidade, de Georgia Oakley


O mundo parece caminhar para a frente e avançar no tempo ano após ano, mas também aparenta viver um retrocesso nos direitos femininos. Ao passo que as mulheres se uniram no passado e iniciaram movimentos legítimos para lutar por seus direitos em diversas partes do mundo, atualmente assiste-se a figuras públicas, parlamentares e celebridades posicionando-se contra o direito ao voto, a autonomia sobre o próprio corpo e até mesmo a liberdade de não se casar e de decidir não ser mãe. Esse movimento retrógrado flerta perigosamente com uma lógica do passado: a de que a autonomia feminina é dispensável e de que o casamento deve voltar a ser a única garantia de estabilidade para a mulher. Essa mesma dependência compulsória era a engrenagem central da sociedade regencial retratada por Jane Austen. Quando a autora inglesa começou a escrever no final dos anos 1700, ela trouxe à sociedade reflexões e críticas contundentes sobre a situação de jovens que, por nascerem mulheres, não tinham sequer direito à herança paterna. Os bens eram repassados diretamente ao parente masculino mais próximo por conta da lei do entailment (fee tail/taxa da cauda). Assim, muitas de suas personagens, baseadas em pessoas reais e próximas, precisavam buscar o casamento como meio de subsistência, sob a ameaça de não garantirem uma vida digna - a lei do entailment permaneceu em vigor durante todo o século XIX, sendo reformada no final da Era Vitoriana e abolida definitivamente no Reino Unido apenas em 1925 (com a promulgação do Law of Property Act).

É justamente essa estrutura de desamparo legal que ganha vida em Razão e Sensibilidade, romance de estreia de Austen publicado em 1811 (veja aqui) e que agora ganha uma nova adaptação cinematográfica pela Universal Pictures, com direção de Georgia Oakley (Blue Jean, 2022). Na trama, a lei do entailment deixa de ser um mero detalhe jurídico para se tornar o motor dramático da jornada da família Dashwood: ao perderem o patriarca, as mulheres da casa veem-se sumariamente desprovidas do direito de permanecer em sua própria casa, Norland Park. Como a lei exigia a transmissão do patrimônio a um herdeiro masculino, a propriedade passa inteiramente para o meio-irmão das jovens, John (Tom Brooke). Com isso, as três irmãs, Elinor (Daisy Edgar-Jones), Marianne (Esmé Creed-Miles) e Margaret (Bodhi Rae Breathnach), e a mãe, Sra. Dashwood (Caitríona Balfe), ficam completamente desamparadas. A vulnerabilidade do grupo se agrava sob a crueldade de Fanny (Stacy Martin), esposa de John, que manipula o marido e assume o controle da casa até expulsar sorrateiramente a família. É durante esse período de incerteza que Elinor conhece Edward Ferrars (George MacKay), irmão de Fanny. Embora surja uma evidente atração mútua, Fanny trata de podar qualquer expectativa ao deixar claro que o jovem está destinado a se casar com alguém da alta sociedade e de grandes posses, lembrando às Dashwood que, sem herança, elas não têm lugar naquele meio. Sem perspectivas em Norland, a salvação surge quando a abastada Sra. Jennings (Fiona Shaw), mãe da esposa de Sir John Middleton (Turlough Convery), parente das mulheres, toma conhecimento do impasse e oferece um pequeno e acessível chalé em suas terras. Embora num primeiro momento a família receie não ter meios nem para custear o aluguel modesto, as diárias humilhações impostas por Fanny tornam a fuga imediata a única alternativa para recuperarem a dignidade.

Em Barton, o novo e humilde lar da família, a necessidade do casamento como garantia de sobrevivência atravessa de formas distintas a vida das duas irmãs mais velhas. Marianne, impulsiva e vivaz, experimenta suas próprias reviravoltas emocionais. Após um encontro inusitado na mata com o misterioso Coronel Brandon (Herbert Nordrum), ela o reencontra na casa de Sir John. O coronel deixa transparecer a Elinor seu fascínio por Marianne, seja ao ouvi-la ao piano, seja ao contemplar seu espírito livre, mas, por ser bem mais velho, precisa disputar a atenção da jovem com o sedutor Willoughby (Frank Dillane). Entre bailes, viagens a Londres e revelações sobre o passado de ambos os cavalheiros, a idealização de Marianne é confrontada com a dura realidade sobre o caráter dos homens que a cercam. Elinor, por sua vez, carrega o fardo da razão e da contenção. Ela também viverá fortes emoções ao descobrir os compromissos em que Edward se envolveu com outra jovem no passado. Longe de julgar, Elinor enxerga na conduta dele um espelho de sua própria ética: a disposição de honrar uma palavra e manter um noivado mesmo sem sentimentos reais, apenas para evitar que uma mulher fique à mercê da miséria e da rejeição social numa época em que não lhes cabiam escolhas. 

Essa atmosfera de sobriedade e constante ameaça de exclusão reflete-se na própria identidade visual do novo longa de Georgia Oakley. Diferente da versão oscarizada de Ang Lee (1995), marcada por tons vibrantes, luz natural exuberante e a estética clássica dos filmes de época, esta nova releitura aposta em uma fotografia mais escura e contida. O tom soturno da película traduz visualmente a temperança da protagonista e a constante sombra do desamparo financeiro que paira sobre as mulheres daquela sociedade.

Crédito de Imagens: © 2026 FOCUS FEATURES LLC. ALL RIGHTS RESERVED.
A superprodução estrelada por Daisy Edgar-Jones teve sua première em Londres no dia 15 de setembro, seguida da estreia nos cinemas do Reino Unido no dia 25 do mesmo mês. A última janela de lançamento do filme ocorrerá na Ucrânia, em 19 de novembro.


A nova releitura não segue o livro à risca, promovendo alterações nos arcos de alguns personagens, como nas nuances que envolvem o Coronel Brandon. Contudo, nada disso compromete a essência da narrativa; trata-se de uma escolha criativa para acentuar ainda mais a canalhice de Willoughby. O duelo entre os dois cavalheiros, por exemplo, ganha contornos distintos ao ser encenado na tela, enquanto na obra original era apenas mencionado em conversa. Outro acerto está na abordagem de duas das maiores críticas historicamente feitas ao romance de estreia de Austen: a rápida transformação dos sentimentos de Marianne, vista por alguns como rasa e por outros como compreensível, e a polêmica diferença de idade entre ela (17 anos) e Brandon (35 anos). O casting contorna a questão ao escalar atores que suavizam esse contraste visual, além de brilhar ao trazer diversidade ao elenco, inserindo atores pardos e de ascendência indiana em papéis de destaque em uma produção britânica de época. Por outro lado, se produções de época vinham celebrando corpos mais plurais e rostos corados, o filme retoma uma estética calcada em corpos esbeltos e padrão de passarela.

Os protagonistas masculinos que Austen constrói aqui não se enquadram no estereótipo do homem viril e expansivo. São figuras mais contidas e misteriosas, cuja nobreza reside justamente no silêncio guardado para não ferir o outro. Embora haja espaço para tipos indignos e interesseiros, a notabilidade do caráter de Brandon e Edward revela cavalheiros de uma simplicidade nobre e genuína. A sociedade retratada pela autora, e que o roteiro exibe bem, vai se dividindo entre os habitantes do campo e os da cidade: de um lado, figuras fúteis e obcecadas por status e dinheiro; do outro, pessoas mais simples e com um propósito de vida bem definido. Dentre a parcela com posses, a Sra. Jennings se destaca por demonstrar uma genuína empatia pelo próximo. Embora cultive um estilo galhofeiro e expansivo, seu passatempo favorito é tentar arranjar casamentos para as jovens, um lazer inofensivo guiado pelo sincero desejo de ver todos felizes.

Trailer





Ficha Técnica

Título Original e Ano: Sense and Sensebility, 2026. Direção: Georgia Oakley. Roteiro: Diana Reid - baseado no livro homônimo de Jane Austen. Elenco: Esmé Creed-Miles, Bodhi Rae Breathnach, Daisy Edgar-Jones, Caitríona Balfe, Charlie Varlet, Tom Brooke, Stacy Martin, Paulie Bovingdon, George MacKay, Herbert Nordrum, Fiona Shaw, Thea Beyleveld, Turlough Convery, Chloe Pirrie, Frank Dillane, Bethany Slater, Eliot Sumner, Ceara Coveney. Gênero: Romance, adaptação. Nacionalidade: Estados Unidos da América e Reino Unido. Trilha Sonora Original: Roger Goula. Fotografia: Arnaud Potier. Edição: Izabella Curry. Designer de Produção: Francesca Di Mottola. Direção de Arte: Caroline Barclay, Juan Cámara, Edward Smith Taylor, Eddie Smith Taylor. Figurino: Grace Snell. Direção de Elenco: Kharmel Cochrane. Empresas Produtoras: Kiddo Films, November Pictures, Working Title Films. Distribuidora: Universal Pictures Brasil. Duração:02h12min.

O som nas produções de época britânicas costuma surgir de forma naturalizada. Ainda que um piano suave possa se sobressair em momentos de maior carga dramática, na maior parte das cenas em que os personagens caminham ou se deitam pelos bosques, o canto dos pássaros assume o protagonismo, servindo como a principal melodia a embalar a contemplação daqueles indivíduos. A edição imprime ao filme um ritmo mais cadenciado e denso e, para quem costuma se incomodar com narrativas mais lentas, este talvez seja o único ponto fraco da produção.

A cineasta britânica Georgia Oakley, que soma cerca de oito obras no currículo entre curtas e longas, ganhou destaque internacional ao dirigir Blue Jean. Estrelado por Rosy McEwen, o filme retrata o dilema de uma professora de educação física no final dos anos 80 que vê sua vida dupla ameaçada pela chegada de uma nova aluna nos ambientes queer que frequenta. Aclamado pela crítica, o longa acumulou 14 prêmios e mais de 25 indicações em grandes festivais. A direção de Oakley caracteriza-se por uma condução minuciosa, que exige do espectador atenção aos detalhes, elementos sutis que dão cor, camada e profundidade à narrativa.

O elenco reúne rostos bastante conhecidos do público. Fiona Shaw, famosa por interpretar a tia de Harry Potter nos cinemas, além de integrar inúmeras séries e produções de prestígio, divide a tela com Daisy Edgar-Jones, que despontou como sucesso em Pessoas Normais (também uma adaptação literária) e hoje consolida sua trajetória em megaproduções de Hollywood. Caitríona Balfe, a aclamada protagonista de Outlander (2014-2026, Ronald D. Moore), assume aqui o papel de mãe de três jovens, uma escolha até inusitada, dada a sua aparência tão jovem. George MacKay traz na bagagem o aclamado Capitão Fantástico (2016, de Matt Ross) e o épico 1917 (2019, de Sam Mendes), enquanto Bodhi Rae Breathnach, filha da atriz Samantha Morton (A Odisseia, 2026, de Christopher Nolan), acumula papéis marcantes em Sandman (2022-2025, Neil Gaiman, DAvid S. Goyer e Allan Heinberg), da Netflix, e A Cronologia da Água (2025, de Kristen Stewart), ganhando cada vez mais espaço no cenário internacional. Já o norueguês Herbert Nordrum surge irreconhecível em relação ao seu papel marcante em A Pior Pessoa do Mundo (2021, de Joachim Trier), sem esquecer de Stacy Martin (Ninfomaníaca: Volume 1, 2013, de Lars von Trier), que compõe uma megera impecável.

Razão e Sensibilidade consegue, sim, apresentar com maestria a força interna que move os personagens de Austen, enaltecendo visualmente uma história que, talvez não seja considerada por muitos a melhor da autora, mas que apresenta muitas idéias críticas a sociedade e ao seu tempo. E Diana Reid entrega um roteiro extremamente coerente e em perfeita sintonia com a obra original. É, com certeza, um filme imperdível!

HOJE NOS CINEMAS

Escrito por Bárbara Kruczyński

    Comentários Blogger
    Comentários Facebook

0 comments:

Postar um comentário

Pode falar. Nós retribuímos os comentários e respondemos qualquer dúvida. :)