O ano é 1956 e o jovem Marty Mauser (Timothée Chalamet) trabalha como vendedor na loja de sapatos de um amigo da família. Apesar da rotina modesta, seu verdadeiro desejo é se tornar um grande jogador de pingue-pongue. Naquele período, o esporte ainda não gozava de grande popularidade nos Estados Unidos, o que limita suas possibilidades iniciais e o obriga a treinar quase de forma solitária, especializando-se com poucos recursos e referências. Movido por essa obsessão, Marty decide abandonar tudo e viajar para um torneio mundial no Reino Unido, onde representará seu país e buscará a consagração em uma modalidade que já havia se tornado febre na Ásia.
A premissa utiliza o esporte como pano de fundo para explorar a personalidade complexa do protagonista. Negligenciado pelos pais, Marty aprendeu desde cedo a entrar e sair de situações difíceis, desenvolvendo uma personalidade maleável, aliada a uma habilidade aguçada de ler as pessoas e extrair delas o que fosse necessário para alcançar seus objetivos. Essa característica, no entanto, frequentemente esbarra em impulsos que ameaçam colocar tudo a perder. É justamente nesse território instável que se destaca a interpretação brilhante e precisa de Timothée Chalamet no papel principal. Da linguagem corporal de um atleta de alto rendimento às microexpressões que transitam entre ódio e euforia, o ator entrega uma performance sólida e arrebatadora, possivelmente a mais eletrizante de sua carreira até aqui.
O roteiro de Marty Supreme, assinado pela dupla Ronald Bronstein e Josh Safdie (Jóias Brutas, 2019), apresenta a sensação de dois arcos narrativos correndo em paralelo, com pouca comunicação entre si. De um lado, temos o clássico percurso de superação de um atleta que sofre um revés e busca reafirmar seu valor para si mesmo. De outro, há o arco em que Marty precisa levantar dinheiro para atingir esse objetivo e, para isso, passa a circular entre pessoas muito ricas, manipulando situações e, não raro, tentando enganá-las. Este segundo arco se revela consideravelmente mais interessante que o primeiro e, em diversos momentos, a direção de Safdie flerta com o universo de um filme de máfia e crime, inserindo cenas de grande suspense e tensão em contextos perigosos que envolvem dinheiro, joias e jogos de poder. É quase como se houvesse um curta-metragem pulsante dentro do longa. Infelizmente, sempre que a narrativa retorna ao arco tradicional da superação esportiva, o filme perde parte de sua força dramática e narrativa.
Crédito de Imagens: Cortesia da A24 / Diamond Films, Divulgação
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Isso fica ainda mais evidente quando observamos que o protagonista tem dois interesses românticos: a atriz Kay Stone, interpretada por Gwyneth Paltrow, que foi uma grande estrela de Hollywood no passado e atualmente é casada com o milionário e patrocinador de Marty, Milton Rockwell (Kevin O'Leary), e a também casada Rachel Mizler (Odessa A'zion) vizinha de Marty que vive uma vida sem graça ao lado do marido e encontra no adultério um pouco de alegria. Kay está diretamente conectada ao arco da busca por fundos, enquanto Rachel está conectada ao arco de superação de Marty, fazendo a própria relação entre eles um paralelo de queda e renascimento. Mesmo que de forma falha, a gravidez de Rachel serve como elo conector entre o começo e o fim dos dois arcos.
A fotografia de Darius Khondji (rodada em 35 MM e com lentes anamórficas em sua maioria) e a construção de cenários são eficientes em transportar para os anos 50 sem muitas estilizações e exageros típicos de retratações de outras épocas. A equipe de figurino e caracterização, por sua vez, soube dosar as coisas para que houvesse um senso de realidade em todos do elenco. A fotografia escura e opressora de uma Nova York onde tudo pode acontecer ajuda a posicionar as intenções dos personagens e da narrativa.
Trailer
Ficha Técnica
Título Original: Marty Supreme, 2025. Direção: Josh Safdie. Roteiro: Ronald Bronstein, Josh Safdie. Elenco: Timothée Chalamet, Koto Kawaguchi, Mariann Tepedino, Odessa A'zion, Ralph Colucci, Devorah Shubowitz, Tyler the Creator, George Gervin, Luke Manley, Timo Boll, Gwyneth Paltrow, Larry 'Ratso' Sloman. Nacionalidade: Finlândia, Estados Unidos da Am[erica. Gênero: Drama, Esporte, Crime. Direção de Fotografia: Darius Khondji. Câmera: Arriflex. Formato de captação: Película 35mm (com inserções em digital). Lentes: Panavision Anamorphic Series C e B (vintage). Figurino: Miyako Bellizzi. Edição: Ronald Bronstein, Josh Safdie. Trilha sonora original: Darius Khondji. Designer de Produção: Jack Fisk. Direção de Arte: Doug Huszti. Edição de som: Chris Chae. Mixagem: Joe White. Produção: Josh Safdie, Ronald Bronstein. Empresas Produtoras: A24, Central Pictures e IPR.VC. Distribuição: Diamond Films Brasil. Duração: 02h29min.
Após sofrer um grande revés, vemos Marty decidido a ir ao Japão em busca de uma revanche contra Koto Endo (Koto Kawaguchi), que o derrotou de forma incontestável anos antes. Ele insiste que não demonstrou todo o seu potencial e que precisa se provar mais uma vez. Essa postura, porém, não se limita ao personagem, ao roteiro ou mesmo a este filme em específico. Trata-se de um reflexo de como o imaginário estadunidense historicamente se enxerga: superior em praticamente todos os aspectos. Quando um atleta dos Estados Unidos perde, a derrota raramente é atribuída a um desempenho inferior, mas sim a adversários desleais, condições injustas ou fatores externos. Para o bem ou para o mal, não é a primeira, nem será a última, vez que esse viés político-ideológico aparece de forma sutil em grandes produções de Hollywood, muitas vezes, inclusive, impulsionando o sucesso desses produtos por meio de uma identificação inconsciente do público coletivo.
A revanche contra Koto Endo encontra resistência não apenas no aspecto financeiro, mas também por parte de seus próprios financiadores, que precisam que Marty perca a partida para potencializar a venda de um produto. Esse conflito deveria funcionar como o grande motor do terço final da narrativa; no entanto, são os acontecimentos anteriores à viagem ao Japão e à luta em si que concentram o verdadeiro clímax do filme. Torna-se evidente que algo está deslocado quando um subplot envolvendo um cachorro desaparecido se mostra infinitamente mais interessante, tenso, perigoso e dramático do que a partida final. O ponto alto ocorre antes do momento esperado, criando uma sensação estranha de prolongamento, que transforma o confronto decisivo quase em um epílogo e reforça a impressão de dois arcos narrativos correndo em paralelo. Nesse estágio, a vitória ou a derrota de Marty pouco importa de fato: ela existe muito mais para satisfazer o ego do atleta - e, simbolicamente, o dos Estados Unidos - do que para cumprir uma função narrativa consistente.
Nas cenas finais, o filme lembra de si mesmo. Surge então uma sequência muito bem escrita, marcada por poucos diálogos, na qual a atuação de Chalamet fala por si. A apoteose do plano final o consagra como um dos melhores encerramentos de 2025, ao lado de seu concorrente nas premiações, "Hamnet", de Chloe Zhao, ao conduzir o espectador por um funil de emoções universais e condensar os temas propostos em uma poderosa maré emocional. Assim, apesar de seus problemas estruturais, a direção de Safdie jamais permite que a monotonia se instale, e Marty Supreme se afirma como um filme ágil, tenso e dinâmico.
O filme contou com apresentações iniciais no Brasil, em dezembro de 2025, por conta da vida do ator ao país, ademais, ganhou sessões antecipadas em 08 de janeiro, mas chega oficialmente aos cinemas de todo o país nesta quinta-feira (22/01).
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