A Mensageira, de Iván Fund

 
“Não adianta ir ao médico, se o problema é na alma”…

Um aspecto que chama imediatamente a atenção neste lançamento comercial de “A Mensageira” (2025, de Iván Fund) é a opção por traduzir – e, assim, alterar – o título no Brasil, quando o original é ‘El Mensaje’: a mudança de perspectiva faz com que prestemos ainda mais atenção à extraordinária interpretação de Anika Bootz como a garotinha que faz contato com os animais, ao passo em que não compreendemos todas as nuanças da mensagem transmitida. Afinal, no filme, esta é reservada aos donos dos animais…

Fotografado em belíssimo preto-e-branco por Gustavo Schiaffino, também produtor, este filme confirma a suma competência do cinema argentino, na abordagem de situações cotidianas e narrativas deambulatórias, que conta com excelentes interpretações e extrai conotações políticas dos encontros fortuitos entre os seres humanos. No desfecho, sabemos sobre os personagens tanto quanto no início, mas, neste percurso, aprendemos muito sobre eles – e também sobre nós mesmos!

Na primeira seqüência, um homem segura uma tartaruga, e deseja consultar-se com Anika, que, junto a Myriam (Mara Bestelli) e Roger (Marcelo Subiotto), oferece os seus serviços em domicílios, no interior do país: ela consegue comunicar-se com animais vivos e mortos, a fim de acalmar os seus tutores quanto às aflições dos mesmos, ou sobre onde eles estão, depois que partem do plano terreno.

       Crédito de Imagens: Amore Cine, Blurr Stories, Insomnia Films, Panes Contenidos, Rita Cine, Alterna Media, Animista Cine / Filmes do Estação - Divulgação
"A Mensageira" foi exibido no Festival de Berlim de 2025 e recebeu indicações ao prêmio do Juri e a melhor filme

Sem emitir juízos de valor acerca das atividades desa família improvisada, o diretor faz com que creiamos plenamente naquilo que Anika transmite como sendo as mensagens de conforto dos animais, ou sobre a revelação surpreendente de um gato, que adquire depressão porque a sua dona visita o veterinário para ter um caso extraconjugal com ele. Não se trata de uma charlatã-mirim, portanto!

Apesar de estarem sempre juntos, Myriam e Roger não são os pais de Anika, e descobrimos ‘en passant’ que a sua mãe está internada numa instituição de repouso (sendo interpretada por Betania Cappato, também responsável pelos figurinos do filme). Não sabemos como aconteceu o encontro entre estas pessoas e, ao invés disso, o diretor e co-roteirista insiste para que acompanhemos o modo carinhoso como eles interagem, destacando-se o momento interessante em que Anika perde dois dentes-de-leite e, ao pô-los debaixo do travesseiro, encontra, no dia seguinte, uma cédula monetária, com a frase “a fada do dente não existe”!

Trailer



Ficha Técnica
Título Original e Ano: El Mensaje, 2025Direção e roteiro: Iván Fund. Roteiro: Iván Fund, Martín Felipe Castagnet. Elenco: Anika Bootz, Mara Bestelli, Marcelo Subiotto, Betania Cappato. Gênero: Fantasia. Nacionalidade: Argentina, Uruguai e Espanha. Fotografia: Gustavo Schiaffino. Montagem: Iván Fund. Direção de som: Leandro de Loredo, Omar Mustafá. Música: Mauro Mourelos. Elenco: Anika Bootz, Mara Bestelli, Marcelo Subiotto, Betania Cappato. Produção: Rita Cine, Insomnia Films. Coprodução: Animista Cine, Panes 360 Contenidos, Blurr Stories, Amore Cine. Distribuição: Filmes do Estação. Duração: 01h31min.

As cenas protagonizadas por Anika são abordadas com muita sensibilidade, impressionando a sua eloqüência, demonstrada de maneira potente na cena em que Myriam pede que ela pose sorrindo diante do anúncio de um cemitério de animais, quando ela demonstra estar incomodada com a situação. As olheiras marcantes da garotinha também impressionam, ajudando a compor a sua personagem, sempre simpática, mas notadamente constrangida e envergonhada, conforme percebemos quando ela é filmada por câmeras de TV, numa reportagem sensacionalista. É como se ela ainda estivesse a desenvolver a própria personalidade, no sentido de que ela é apenas uma criança, com problemas recorrentes para dormir…

A trilha musical de Mauro Mourelos é mui apropriada, em seus acordes extraídos de instrumentos de sopro, que irrompem de maneira notável quando Anika encontra animais perdidos pela estrada, como vários cavalos – um deles, atacados por cachorros de rua – e até mesmo uma capivara. A cena em que ela transmite o recado de uma fêmea de porco-espinho, que se sente solitária por estar afastada de seus irmãos, é particularmente graciosa, mas o filme evita a teleologia esperada desse tipo de narrativa: conforme dito anteriormente, tudo termina mais ou menos como começou, com os personagens em trânsito, enquanto a canção favorita de Roger (“Always on My Mind”, na versão dos Pet Shop Boys) é executada enquanto acompanhamos uma revoada de pirilampos, que desenham imagens maravilhosas na tela, percorrendo como pontos brancos a tela enegrecida da noite. Filme maravilhoso!

EM EXIBIÇÃO NOS CINEMAS

Escrito por Wesley Pereira de Castro

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